VAMOS, JORJÃO!

(Esta não é uma crônica sobre futebol, você descobrirá isso se ler até o final).

As palavras poderiam ter vindo de um engenheiro, de um médico, de um físico, deum padeiro, de um pedreiro, de um balconista ou de um bancário. Mas vieram de um jogador de futebol. E elas marcaram a memória daquele adolescente de 13 anos, que agora, aos 60, tenta reproduzi-la aqui.

No início dos anos 70, o Internacional de Porto Alegre tinha uma grande equipe de futebol. Entre outras estrelas brilhavam o zagueiro Figueiroa, o meio campista Paulo Cezar Carpegianni, os atacantes Waldomiro e Escurinho e o novato catarinense, loiro de cabelos encaracolados que saía da base para compor o elenco principal, cujo nome, quando pronunciado por completo pelos  locutores do rádio era Paulo Roberto Falcão.  E um lateral esquerdo chamado Jorge Andrade. Esse time viria a ser bicampeão brasileiro ganhando os títulos de 1975 1976.

Mas o ano era 1973 e a Revista Placar trazia uma reportagem sobre o menos aplaudido do elenco, exatamente o lateral Jorge Andrade. Esse jogador tinha, naquela época, 30 anos de idade e era muito irregular, dava um passe certo e dois errados, corria demais num lance e de menos nos outros e seu destino era sempre o banco de reservas. Só iniciava o jogo quando o titular estava machucado.  E se o lateral titular era negociado, o Internacional saía a procura outro para a posição. E Jorge Andrade continuava no banco. Quando ele entrava em campo e participava de uma jogada de ataque, a torcida colorada gritava: “ Vamos, Jorjão”!

Então, a reportagem da revista contava tudo isso e trazia uma entrevista com esse jogador. Lembro-me que a última das perguntas feitas pelo repórter foi assim:

- O que deve fazer um jogador que, aos trinta anos de idade, luta para fugir da reserva?

Não sei se a resposta foi autêntica ou se foi o próprio repórter que a editou, mas eu, que nunca fui jogador de futebol,  a tomei para vida inteira.

- Continuar lutando – disse Jorjão.

 

 (Angelo Humberto Anccilotto - Jan/2020)