A GAIVOTA

Eu ia do Rio de Janeiro para Salvador, num navio, e já tinha navegado mais de doze horas, portanto acho que já estávamos na altura de Vitória, no Espírito Santo, e a uma distância de pelo menos 20 milhas náuticas da costa. Como o lado interno do navio estivesse um inferno, com passageiros de acotovelando nos elevadores que demoravam séculos para descer ou subir, resolvi tentar o lado de fora. Sim, o lado de fora de um navio em alto mar é o próprio mar. Mas é possível estar no lado externo de uma embarcação, desde que a cabine seja provida de um pequeno terraço, onde caibam duas cadeiras e uma mesinha, como se fosse a varanda de um apartamento, em terra firme.  E assim instalei-me no exterior da carlinga, que era quase como estar flutuando sobre o oceano.

Mas engana-se quem imagina que a vinte milhas mar a dentro as únicas visões possíveis são os raios solares dourando as ondas azuis, a espuma que o navio vai fazendo na água ou a acrobacia de um espadarte corcoveando o vagalhão. Há também o inexplicável voo das gaivotas que seguem os navios. Nesse dia era apenas uma gaivota, solitária, que voava acompanhando o grande transatlântico como se fosse um cachorro correndo feliz emparelhado com o seu dono.

Ela ruflava as asas brancas e pretas para depois encaixar-se na corrente de ar e seguir flanando paralela á minha varanda. De vez em quando acelerava o voo e sumia lá na frente. Eu tinha a impressão que ela entrava no navio, num dos compartimentos da proa, muito provavelmente no último deck, em espaços privativos, reservados aos passageiros do Yacht Club. Gaivota  grã-fina essa! Chego a imaginá-la entrando no salão e atirando-se numa poltrona, colhendo uma toalha limpa e enxugando o suor a testa, respirando profundamente e cruzando as pernas por uns segundos antes de se lançar ao mar outra vez. O que faz ali, tão longe da terra? Segue-nos por mero exibicionismo? Espera que o navio desentocalhe um cardume de peixes para o seu mergulho arpoador?

O fato é que me distraio observando essa ave de voo correto e ímpar. Talvez sejamos dois seres misantrópicos, insociáveis, cada um de nós desfrutando, sem culpa, a nossa solidão. Para mim, que não tenho asas e não posso esperar que a corrente de vento me transporte para o ermo dos mares, não há melhor lugar no mundo para se praticar o isolamento do que o lado externo de uma cabine de navio que vai singrando as ondas, enquanto não se divise no  horizonte uma cadeia de edifícios na orla da praia, indicando que todo sossego do mundo uma hora se acaba.  

Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2020)