A VERDADE VOS LIBERTARÁ

Eu era ainda bem pequeno e ouvia por todo canto, em casa, na casa do vizinho, na igreja, nas casas de comércio: “Foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria, foi crucificado e sepultado, ressuscitou ao terceiro dia...”

O que, de fato, uma criança iria entender por concepção pelo Espirito Santo, nascer de uma Virgem e ressuscitar no terceiro dia? Acaso eu saísse perguntando, não creio que haveria alguém disposto a esclarecer. Então fiz um depósito de confiança: acreditei e fiquei de compreender tudo no futuro onde, eu imaginava, alguém haveria de me esclarecer essas incógnitas.

Eu fui crescendo, e o mundo evoluindo, e a Natureza repetindo incessantemente os seus códigos: todo nascimento, seja no reino mineral, vegetal ou animal, vem de uma polinização. Se para a espécie humana o conceito de virgem está atrelado à inexistenca de realçao reprodutiva, como pode seu ventre ser fecundado?

E tudo o que vive neste planeta morre um dia. Em termos absolutos a vida é muito menor que a morte, ou seja, o tempo que passamos sem existir é muito maior que o tempo que existimos. Secou o poço d’àgua do quintal, foi preciso abrir outro; aquele nunca mais forneceu água, assim como açude do fundo da fazenda. Morreram os pés de tangerinas do pomar e nunca mais nenhum deles brotou. Faleceram meus avós e não retornaram à vida.  O fim me parece cabal, mas eu ainda continuo fazendo a mesma oração em que Ele nasceu da Virgem e ressuscitou ao terceiro dia.

Quando procurei explicações, o que me disseram foi que isso é fé e que a fé não tem necessidade de entendimento. Procuro, em vão, explicar que minha fé não se modificaria se Ele não tivesse nascido da Virgem Maria nem ressuscitado ao terceiro dia. E ao apresentar-lhes um Cristo mais humano que Divino a fúria de anciões e contemporâneos atinge-me como um desvalido pecador: Herege! Blasfêmia!

Sem sair da minha condição mortal e sem muita esperança na Vida Eterna, novamente em vão tento explicar que a mim me bastaria um Cristo nascido de homem e mulher, morto por sua luta contra as injustiças do mundo. Eu não o admiraria menos por isso. Ah, mas o mundo não crê nos homens! Foi preciso transformar um homem em Deus para a nossa salvação? O Cristianismo existiria se as pessoas se deparassem com  um igual lutando de  homem para homem por um modelo de paz e humildade? Teria alguma virtude se fosse assim?  A remissão deste mundo é privilégio de que vem do Alto? Os pobres da Terra que nascem da Terra estão sumariamente fadados ao arrependimento dos pecados ou à condenação do Inferno?

Eis o mistério da fé. Mas, pertenço a este mundo terrno e procuro compreendê-lo, oscilando entre suas subjeções. Penso como naquele poema do Mário Quintana: "Qquem urde eternamente a trama de tão velhos sonhos? Quem faz – em mim – estas interrogações?”

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2019)