TRANCOS E BARRANCOS

Uma moça que trabalha comigo me pediu duzentos e setenta reais emprestados para pagar uma taxa de inscrição de não sei bem o quê. Quando alguém nos pede dinheiro emprestado a gente começa a prestar atenção nos argumentos do mutuário e acaba esquecendo a finalidade do empréstimo. Então, a moça, e eu assim a considerava  até saber que ela era mãe de dois filhos, contou que precisava tirar um documento e que não dispunha de recurso  algum. Para quê seria esse documento? Para poder trabalhar devidamente legalizada.

Trabalhar é tudo o que ela precisa. Tem dois filhos pequenos para criar. O pai? Bem, o “casamento “ entrou em crise, o casal se separou, cada um mora numa cidade e ele envia quinhentos reais por mês a título de “pensão alimentícia”.

Deixei o casamento dos dois entre aspas por que na verdade não há certidão matrimonial lavrada em cartório que ateste a relação conjugal de ambos. O que houve foi só um período de união estável – e pelo que ela me contou , não tão estável assim. Hoje ela procura um jeito de reaver  o dinheiro que depositava na conta dele para quitar as prestações do apartamento que ele adquirira, na condição de solteiro, por meio financiamento bancário.

Durante a conversa afloraram outras revelações e muitas outras lamentações, mas não é com isso que quero preencher esta crônica. O que quero escrever é uma indagação que venho me fazendo:  Por que centenas de milhares de brasileiros andam com suas vidas desarrumadas perante a legislação que nos regulamenta. É muito comum um negócio ser abortado por que o cliente interessado não consegue comprovar, ora a renda, ora a situação patrimonial, ora a situação civil.

Estamos vivendo à revelia da Lei, fazendo o que nos dá na veneta, seguindo a liberdade dos ventos, sem um pingo de compromisso com os atos que praticamos. Unimo-nos matrimonialmente de forma clandestina, geramos filhos – ao pé da letra, ilegítimos – habitamos tetos sem saber a quem pertence, entregamo-nos ao amor livremente, aquele amor que não busca amparo legal ou burocrático.

Em meu livro “O CONSTRUTOR DO INFERNO”  meu personagem principal luta contra o excesso de liberdade e o mau uso do livre-arbítrio, chegando ao extremo de dizer que só Inferno pode punir a culpa da liberdade mal usada. Pois aí está. Esta história, infelizmente, é real  e denuncia como estamos vivendo. Em nome da suposta liberdade de não ouvir conselhos, de não seguir regras e costumes, estamos recorrendo humildemente à  quem possa nos socorrer quando a nossa liberdade dá com os burros n’água.

A vida de muita gente neste país segue a trancos e barrancos. A lei não ampara a todos; a letra da Lei é difícil de ser lida.  As necessidades são prementes, ninguém em tempo de esperar o entendimento da lei.  Emprestei duzentos e setenta reais à moça, não anotei na agenda; tenho a impressão que não vou receber de volta.       

Angelo Humberto Ancilotto (Set/2019)