CARPINTEIROS DO UNIVERSO

(Não sei por que nasci /Pra querer ajudar a querer consertar /O que não pode ser...) - Raul Seixas

O carpinteiro do Universo, aquele que quer resolver os problemas de todo mundo, não sou eu. É, ou pelo menos foi, um dia desses, o meu vizinho.

Saí do meu apartamento para levar o lixo doméstico para as lixeiras que ficam no subsolo. Seria o caso de abrir a porta, esperar o elevador, descer 8 andares, depositar o lixo e tomar o elevador de volta. Calculei o tempo dessa missão entre 2 e 3 minutos. E por ser um prazo tão pequeno, saí , encostei a porta e deixei a chave na fechadura, pelo lado de fora. Ora, em no máximo 3 minutos eu estaria de volta, não quis colocar lixo no chão para trancar adequadamente a porta com a chave como fazem os doze milhões de habitantes restantes desta cidade.

No elevador, tive dúvidas sobre minha atitude. E se alguém visse a chave na porta e resolvesse entrar? Prolonguei o pensamento e percebi que, embora o meu andar tenha outros 3 apartamentos, somente o vizinho do lado poderia detectar a chave no contato, isto é, na porta. E ainda que ele visse a chave, ele é, pelo meu conceito, gente de bem que não iria tirar proveito da minha negligência.

Mas, para quem não acredita, a lei de Murph existe mesmo e também, tão difícil como o alinhamento dos planetas do sistema solar num determinado período, tudo o que imaginei aconteceu em 3 minutos. Nesse mísero espaço de tempo, meu vizinho chegou. Como se se não bastasse chegar, avistou a chave na minha porta. Como se não bastasse chegar naquele momento e avistar a chave na minha porta, mexeu nela, trancou a porta e retirou a chave.

Ao chegar na frente da minha porta senti um frio na barriga não vendo a chave ali. Rodei a maçaneta e a porta não abriu, toquei a campainha do meu próprio apartamento para saber se minha mulher já estava em casa e tivesse sido ela quem fechara a porta. Não fora, e meia hora antes ela me enviara uma mensagem dizendo que chegaria em uma hora, se o trânsito assim permitisse.

O remédio foi tocar a campainha do apartamento do vizinho. Ninguém lá dentro tossiu ou mugiu. O que fazer se não consigo entrar no meu próprio lar? Desci outra vez e fui verificar com o porteiro se alguém deixara minha chave com ele. Não deixaram. O jeito foi sentar na mureta do prédio e lamentar minha estupidez de deixar a chave na porta e acreditar que em 3 minutos ninguém iria perceber. Mas eu tentava me consolar imaginando que meu erro não fora tão desastrado assim. Moro num edifício de 60 apartamentos, ninguém acima ou abaixo do meu andar saberia que deixei a chave na porta. Mesmo no meu andar somente esse vizinho, que pelo que eu sabia não estaria em casa naquele momento, poderia descobrir. Eu tinha 59 razões para confiar e só uma para desconfiar.

O fato é que enquanto eu pensava essas coisas, meu vizinho apareceu na portaria trazendo a minha chave. Disse ele que pretendia entregá-la ao porteiro imediatamente, mas encontrou outro morador no hall que insistiu para ele ir à garagem ver um probleminha no carro e ele foi... e tudo isso com a chave do meu apartamento no bolso. Primeiro me deu uma bronca: já pensou se fosse outra pessoas no lugar dele? (Sempre assumimos essa superiodade perante aqueles que ajudamos). E depois me pediu desculpas, eu nem lembro direito se aceitei ou não. Minha vontade mesmo era de dizer, no mínimo: Muito ajuda quem não atrapalha! Deixem as chaves dos vizinhos na porta. Se eles confiam, quem somos nós para desconfiar?

(Angelo Humberto Anccilotto - out/2019)