MANIFESTO MASCULISTA

Eu atravessava a rua na faixa riscada destinada à passagem dos pedestres. O primeiro motorista parou e aguardou a minha vez. Era um homem. O segundo tirou o carro para a esquerda e avançou na contramão em alta velocidade, sem esperar minha travessia. Era uma motorista. Não foi a primeira vez que observei essa infração de trânsito cometida por uma mulher. E tem ainda aquelas situações que não são bem infrações, mas são deselegâncias horríveis, como buzinar por qualquer motivo, fazer o arranque cantando os pneus, xingar e fazer gestos para os outros condutores. Sim, tudo isso é normal... entre os homens e nós esperávamos que a ascensão feminina fosse trazer mais charme e mais educação ao trânsito pesado das grandes cidades. Não trouxe.

Aliás, esta crônica talvez seja um protesto inédito contra as mulheres. Não por preconceito, não por machismo,  mas pela esperança que elas nos roubaram. Esperava-se um mundo mais humano e mais civilizado quando, enfim, este planeta estivesse livre das obstruções aos sonhos femininos. Quando as mulheres ocupassem e dividissem espaços antes exclusivamente masculinos ou chegassem ao topo da pirâmide social e profissional jogando lá de cima os arcaicos senhores do poder, supunha-se que as decisões que nos afetam seriam manipuladas com o viés da inteligência emocional.  Mas, que nada! A inteligência da mulher  que comanda uma indústria ou um país está a serviço da produção e do lucro como sempre esteve a inteligência do homem que comandava antes. Trocamos seis por meia dúzia.

A liberdade delas trouxe também certo enfeiamento audiovisual e comportamental. Aproxime-se de um grupo de mocinhas que discutem ou comentam um evento qualquer e ouvirá dos lábios delas os mesmos palavrões pelos quais nós meninos, quando pequenos, levávamos tapas na boca. Elas agora falam em público termos que nossos pais consideravam de baixo calão, indignos de serem pronunciados sequer numa sala de porta fechada. Apostamos nossas fichas na modificação de comportamento que as mulheres nos trariam e caímos do cavalo.

Vamos para o trabalho imaginando encontrar nossas colegas de escritório deslumbrantes em seus taillers, com seus lenços de seda no pescoço e suas fragrâncias pelo ar redimindo o mau gosto dos perfumes masculinos. Em vez disso encontramos nossas colegas trajando calças de brim esfarrapadas nas coxas e nos joelhos impregnando o ambiente com a mais lúgubre sensação de miséria e desleixo. Sim a moda muda, mas precisava chegar ao ponto de nos mergulhar na pobreza de espírito de seus inventores?

Aliás, antes de chegar para o trabalho, sabendo que hoje as moças são quase maioria no transporte público, chego a sonhar com um trem ou um ônibus coletivo com os assentos prioritários livres para os usuários especificados na lei e devidamente protegidos por elas das investidas dos marmanjos que nunca aprenderam as boas maneiras do convívio social. Em vez disso, o que encontramos no transporte público são mocinhas ocupando os assentos dos idosos, de olhos fechados e fone nos ouvidos, viajando duplamente no trem e na canção que vão ouvindo.. Ao lado, o senhor e a senhora com mais de sessenta anos sacolejam ao prazer das curvas dos trilhos ou das lombadas no asfalto.

Mulheres, se fosse para deixar o mundo igual ao mundo dos homens, por que vocês lutaram tanto?

 

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2019)