PARA TIRAR O CHAPÉU

Estive em Guaraçaí há alguns dias, e como além de familiares vivos também tenho aqueles que deixaram este mundo, e como também se aproxima o Dia de Finados, estive no cemitério para uma rápida visita e uma ligeira conversa extranatural.  Na volta para casa, paro um instante no portão da necrópole para aguardar um trator que vinha cruzando a estrada. Foi então que observei que ao se aproximar do portão o homem que guiava o trator tirou o chapéu e manteve-o no colo até que terminasse a travessia.

Esse ofício gratuito de escrever crônicas requer que às vezes sejamos bem menos introspectivos e bem  mais espontâneos.  Seria o caso de eu acenar a esse motorista e pedir que parasse na beira da estrada para uma rápida arguição. Quem seria ele? Como se chamava? De onde vinha? Para onde ia? Que religião professa?  E apertar-lhe a mão e parabenizá-lo pela atitude. Não fiz nada disso e agora me vejo escrevendo sobre um homem de quem nem o nome eu sei dizer.

Mas o gesto de tirar o chapéu no portão do cemitério ficou na minha memória. Não é a mesma coisa que fazer o sinal da cruz ao passar por uma igreja, porque essa prática o identificaria como um cristão católico. Tirar o chapéu não revela nada sobre ele.  Mantêm-no anônimo para além de todas as pressuposições que queiramos fazer. Seu gesto não é dessas coisas que se aprende nas igrejas ou no catecismo, aprende-se com a vida, na incansável faina de viver e conviver.

Não estou certo se o gesto do homem demonstrava respeito pela morte ou se, pelo contrário, ele fazia aquilo em respeito à vida dos que ali agora repousam.  Vida de muitos conhecios, muitos amigos, talvez.  Mas é um gesto raro, que há muito deixou a lista das coisas corriqueiras que estávamos habituados a ver em tempos já um pouco distantes . Ando cansado de ouvir notícias de saqueadores de túmulos, mesmo já vi pessoas roubando vasos de flores das sepulturas, vejo inúmeros muros de cemitério pixados, atestando o pouco respeito ou a total indiferença com os nossos mortos.

Então, não me constranjo de reverenciar o gesto de um homem desconhecido que mora em Guaraçaí que tirou o chapéu na frente do portão do cemitério. Sua atitude é muito maior que este texto que escrevo em sua homenagem. Mas é, respeitosamente, o meu jeito de tirar da cabeça um chapéu imaginário para demonstrar-lhe  a minha admiração.  

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2019)