LAGARTIXA EXISTENCIAL

Depois de algum tempo retorno a Santa Catarina e, como não desfruto mais de minhas acomodações domiciliares neste Estado da Federação, tomo um quarto de hotel para hospedagem. Chego por volta das nove da noite, tomo um banho quente - na verdade mais morno do que quente. A noite é silenciosa, a temperatura gira pelos dezenove graus. Não tenho fome, então ligo a televisão e me ocupo com um programa qualquer. Em breve terei sono e oxalá tenha tempo de apertar o controle remoto antes de adormecer.

Mas há um movimento qualquer na parede do quarto, acima da televisão, e meus olhos migram instantaneamente de programa. Deixo de assistir à moça loira que dá dicas sobre comportamento social e passo a seguir o ziguezague das patas de uma lagartixa que sobe a parede, tentando alcançar o teto. Estou deitado e tenho um par de chinelos na beira da cama, que pretendo calçar quando me levantar e o primeiro impulso é apanhar um deles e arremessar contra o pequeno réptil alpinista.

Mas me conheço muito bem; sei que não tenho essa coragem. Passados alguns segundos estou rindo do meu instinto verdugo. Sou um homem de estatura superior a 1,70m, peso quase 90 quilos, que ameaça representaria para mim um bichinho de 15 centímetros - já incluídos os 7 ou 8 da cauda, e que pesa, se tanto, 40 gramas? Não vejo nele nenhuma garra afiada nem mandíbulas sobressalentes que possam-me estraçalhar um braço ou uma perna. Ademais, o pobrezinho tenta escalar a parede cada vez mais rápido e cada vez mais perturbado sabendo que meus olhos perseguem seus movimentos.

Mas não o observo por medo ou por asco. Apenas busco resolver uma espécie de equação que se formulou em meu pensamento. Estou num quarto de hotel, instalado no oitavo andar de um edifício localizado no centro geográfico de um perímetro urbano onde num raio de dez quilômetros predominam asfalto, concreto e alvenaria: como é que esse bicho veio parar aqui?

Terá escalado as paredes desde o andar térreo? Parece-me frágil para isso. Nasceu aqui mesmo, numa fresta de porta ou de janela? Mas onde estarão os ancestrais que puseram os ovos na fenda? E os outros irmãos? Do que se alimentou até hoje se não ha mosquitos e insetos nessa altura do edifício? Desce todos os dias até a cozinha para furtar restos de comida e depois sobe a parede de volta?

O fato é que a misteriosa presença de minha companheira de quarto me tira o sono. Sem responder nenhuma das questões que fiz a mim mesmo, salto da cama, visto a roupa novamente, calço os sapatos, tomo o elevador e vou ao saguão do hotel. Entro no bar; peço um uísque. A lagartixa do oitavo andar, assim como tantos fenômenos da Existência, continua subindo. Dessa vez pelas rústicas paredes da minha (in)compreensão.

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2019)