TRAUMAS

Já aconteceu comigo entregar a declaração de IR e (no tempo em que era feita no formulário azul ou verde) entregar no banco e nove meses depois a Receita Federal me enviar notificação para prestar esclarecimento sobre o fato de eu deixar de declarar os rendimentos do exercício anterior.
Já aconteceu eu marcar consulta médica e me apresentar meia hora antes na clinica e a atendente não encontrar meu nome na lista: “O senhor tem certeza que a sua consulta era pra hoje?”

Já aconteceu enviar cartas pelo correio que nunca chegaram ao destino.

Já aconteceu eu fazer matrícula para um curso e o meu nome não constar entre os inscritos para as aulas.

E já aconteceu eu fazer entrevista para emprego e sair de lá praticamente contratado, ficando na pendência apenas de alguns detalhes burocráticos. E como o tempo passasse sem nova convocação para a posse ou para acerto de detalhes, resolvi ligar: Alô, é o Angelo. Que Angelo? Da vaga tal... Desculpa, senhor, mas essa vaga já foi preenchida.

Diante de tais aborrecimentos, sinto agora um grande desconforto em diversas situações:
Por exemplo, se compro uma passagem aérea numa promoção, passo dias terríveis até o embarque: Será que este vôo existe mesmo? Se faço check in on line é pior ainda: Será que o assento que escolhi estava mesmo livre? Não vai ter ninguém no meu lugar?

Se faço uma reclamação nessas centrais de prestadoras de serviços que pedem 5 dias úteis para “estar averiguando”, estremeço: Será que daqui a cinco dias quando eu ligar de novo e informar o protocolo eles vão mesmo encontrar minha reclamação no sistema?

Se compro algum produto pela internet e pago com cartão de crédito, não durmo até que o pacote me chegue às mãos: “Será que não foi golpe?”

Até mesmo o pagamento da aposentadoria me deixa preocupado: “Será que não cancelaram?” E vou ao banco ver se já tem lançamentos futuros.

Eu tenho lá minhas razões para carregar sempre a pulga atrás da orelha, como se dizia antigamente.Mas quando vejo que o vôo da passagem aérea comprada na promoção existe mesmo, e que o assento que escolhi no checkin on line está realmente livre, quando a central de reclamações identifica o meu número de protocolo e avisa que o problema já foi resolvido, quando o porteiro me entrega o pacote da compra que fiz pela internet ou que o salário entra na conta, sinto um alívio e uma vaga sensação de que este planeta funciona de verdade.

E carrego essa segurança até a próxima compra de passagem, até o próximo checkin, a próxima encomenda on line, a próxima reclamação de serviços e o próximo salário. Aí me volta na memória a Receita Federal cobrando minha declaração, a recepcionista da clinica não encontrando meu nome na agenda, o professor não localizando minha matrícula para o curso.... São traumas das imperfeições minha e do mundo.

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2019)