FALSO BRILHANTE

Depois do Presépio, a Árvore de Natal é o maior símbolo da festa cristã que comemora o nascimento de Jesus Cristo, em 25 de dezembro. Milhares de lares, lojas, condomínios, praças, parques e paços municipais armam a árvore com o intuito de referenciar a data. No fundo, os adereços multicoloridos que a enfeitam, acabam, por assim dizer, enfeitando a vida.  

Então, numa grande praça de uma grande cidade, os homens da prefeitura encarregados de transmitir o espírito natalino aos munícipes e visitantes, reuniram-se para avaliar o melhor local para fincarem a Árvore de Natal. As administrações municipais têm por princípio não repetir os mesmos gestos das administrações sucedidas. Assim, se o prefeito anterior instalou a Árvore no setor norte da praça, o prefeito atual certamente ordenará ao seu secretariado que a instale no setor sul. Fazem desses míseros antagonismos um elevado conceito de oposição. É o sistema político, paciência.

Encontrado o espaço supostamente ideal para a instalação da Árvore, um dos envolvidos no projeto natalino da prefeitura reclamou que o local não era lá muito apropriado pois haveria na frente dela uma árvore natural que esconderia um bom pedaço do ornamento. E na discussão que se formou em seguida sobre se o local era bom ou ruim, se a árvore tapava ou não tapava a visão do público, alguém sugeriu: “Por que a gente não corta esta árvore que está atrapalhando?”  

Não nos aprofundemos mais nas conjecturas dos homens da prefeitura. Não demos desfecho ao caso, de forma que não revelarei se a árvore que atrapalhava foi arrancada ou não do local. Mas reflitamos sobre a sugestão levada à discussão do grupo:  “Por que não cortamos esta árvore?”  E me vem na cabeça a imagem de uma senhora que resolveu reunir a família para um almoço de domingo. A velha senhora começou os trabalhos do almoço de domingo já na tarde do sábado, preparando um manjar para sobremesa. Mais à noitinha ela fez a calda e jogou sobre o manjar, depois esperou esfriar, tapou e guardou com todo cuidado na geladeira para ganhar consistência. E pensou na alegria dos filhos e netos quando, depois do almoço do dia seguinte, ela se ausentasse da mesa por um instante e retornasse com a sobremesa branca e dourada tremulando dentro de uma travessa.  Mas quando ela põe os pés na sala com o doce a nora se levanta cheia de autoridade e diz: “Manjar, não, minha sogra! Eu passei na padaria e comprei uma torta de morango. As crianças adoram.”

A pobre senhora dá meia volta com a travessa na mão e a esconde de novo na geladeira. Come com modéstia a torta de morango que o coração bondoso da nora ofereceu, e a noite, quando todos se retiram ela ainda se lembra de colocar um pedaço de manjar numa tupperware para as visitas levarem para casa e comerem no dia seguinte.

Assim eu penso que tenha sido a reação de Deus diante da sugestão de cortar a árvore. Ele que andava orgulhoso por ter oferecido sombra natural àquele grupo de homens que discutiam debaixo do sol quente, humildemente recolheu a planta e a preservou por meio de suas chuvas para voltar a oferecer-lhes em janeiro, quando o grupo voltasse para desmontar o artefato de ferro, veludo e lâminas coloridas.

E sorriu complacentemente apreciando a Árvore artificial com a qual os homens Lhe rendiam aquela homenagem.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2018)