UMA TARDE ENTRE PÁSSAROS

Eu devia ter cinco ou seis anos quando  saí de casa pela porta da cozinha e vi um bicho estranho no quintal, ciscando no meio das galinhas. E vocês já devem ter percebido  que o tal bicho só poderia ser uma ave; senão não estaria ciscando. Era uma ave de penas azuis bem escuras, quase pretas, cobrindo todo o dorso e o peito, e embaixo, entre as pernas, as penas eram brancas. Era do tamanho de uma galinha, com um rabo maior, na cor preta também e o bico amarelo.

Ainda vivíamos a década de 1960, época em que o homem do campo não passava de um trabalhador honesto, porém matuto e desinformado, com uma saga natural de caçador. E quanto mais incomum fosse o bicho, mais orgulho ele tinha em abatê-lo. Então, essa pobre e rústica criança achou tão linda e tão estranha a ave  que seu primeiro impulso foi sair correndo e avisar o vizinho que trabalhava nas imediações. Ele foi em casa, pegou a espingarda cartucheira, foi lá no terreiro e baauumm. A ave tombou sem vida. E só depois disso é que nos interessamos por descobrir que pássaro seria aquele. E, especulando-se uns e outros, alguém mais entendido disse que era um mutum. Hoje eu lamento muito aquele impulso de ter ido avisar o vizinho.

E ocorreu na semana passada, quando saí da Rondon e fiz o trevo de Guaraçaí, bem no comecinho da pista de acesso, passaram voando na minha frente dois tucanos, depois mais dois e vinham muitos outros voando atrás deles. Oito? Dez? Doze? Não deu tempo de contar, mas foi um belo espetáculo com o se uma esquadrilha aérea fizesse uma evolução no ar, saudando a minha a chegada.

Minutos depois, quando tentava estacionar na frente da casa de meu pai, foi preciso esperar que uma pomba juruti terminasse de alimentar o filhote já emplumado na beirada da sarjeta para aí sim eu alinhar o carro no meio-fio. Terminada a refeição, mãe e filho voaram para o muro lateral e de lá para  a copa da árvore enfolharada da calçada do vizinho, onde, aliás, foram juntando  outras várias. Tornou-se cena comum ver essas pombas beliscando nas calçadas, bebendo nas poças d’água, arrulhando nos fios de eletricidade. Às vezes penso que não demora muito e elas irão à prefeitura reivindicar um conjunto habitacional, mas acho que não chegarão a tanto. Quem precisa de um teto de alvenaria quando se tem tantos galhos para pousar e a abóbada celeste para se cobrir?

Mais tarde, quando tentávamos por a conversa da família em dia, foi preciso falar cada vez mais alto, pois as maritacas se juntaram num pé de sete copas bem próximo e lá palravam tão estridentemente como uma ruidosa manifestação humana. Seriam as discussões costumeiras do chá das cinco? Encontro dos pares para terapia de casais?  E se pensei que pombas pudessem reivindicar seus respectivos tetos, cheguei a ficar com pena do prefeito se um dia todas as maritacas da cidade tomarem a frente da prefeitura para exigir mais árvores na cidade.

E mais tarde ainda quando desci até o Bocha, não necessariamente para jogar bocha, percebi o movimento de um happy hour paralelo, embora em nível mais elevado que o nosso. No topo das palmeiras da Praça Manoel Marques as araras soltavam sonoras gargalhadas, pulando de uma folha a outra, ou de um coqueiro ao outro. Enquanto bebíamos nossa cerveja e contávamos nossas anedotas elas comiam os coquinhos e se divertiam como quem não tivesse hora certa de voltar para casa.

Foi uma tarde muito gostosa como, aliás, poderia ter sido aquela tarde da minha infância, caso eu contivesse o ímpeto de ir correndo chamar o vizinho  e apanhasse um pedaço de bolo de fubá e uma caneca de café e ficasse sentado na soleira da porta, olhando o mutum ciscar entre as galinhas.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2011)