AMOR QUE MOVE MONTANHAS

Outro dia, um homem na calçada, em frente à sua casa, me mostrava duas arvorezinhas que ele plantou, para sua sombra particular. Uma delas já tinha mais de um metro de altura e a outra não passava de trinta centímetros.  Ele não compreendia por que aquela outra não cresceu, se ambas foram plantadas no mesmo dia, sempre foram regadas da mesma forma, receberam os mesmos cuidados e a mesma quantidade de fertilizantes. O que tem de errado? – ele me perguntava.

Não sou botânico, não tinha como dar resposta à sua indagação, mas me aproximei da pequena planta e segurando o seu caule, com um pequeno puxão vertical, percebi que ela se deslocava facilmente da terra.  Provavelmente essa planta tinha alguma deficiência, como, talvez, a raiz principal que não se desenvolvera e não alcançava devidamente os nutrientes do solo. Uma planta excepcional.

Passei boa parte do dia pensando nisso. Que fim levam as plantas que nascem com disfunções fisiológicas?  Há tratamento? Não tenho embasamento científico para discutir com propriedade o assunto, mas pressinto que morrem sufocadas nas florestas ou são arrancadas para dar lugar a outras plantas sadias quando são cultivadas nos pomares ou nos jardins. Assim é Natureza!

Será? Vejo um filme amador nas redes sociais, em que um cachorrinho que teve a pata amputada, anda e corre amparado numa pequena engenhoca composta de um apoio peitoral, um eixo e uma roda. A roda substitui a pata do cachorro e assim ele recupera a mobilidade quase que irrestritamente. Percebe-se a cara de felicidade desse animalzinho. Posso deduzir que o mesmo projeto possa ser adaptado para outras espécies animais, mas não sei dizer o que ocorre quando os animais sofrem de outras deficiências que não sejam as dos membros amputados.  Morrem ao nascer? São estimulados a morrer na tenra idade? A Natureza sábia é, às vezes, monstruosa dentro de sua harmonia.

Mas existe o ser humano, essa criatura tão acusada de destruir o Planeta, muitas vezes vive para consertá-lo.  Talvez ele ainda não ame suficientemente as plantas para salvá-las de suas anomalias como ama o cãozinho sem pata que, por sua intercessão, volta a correr no quintal. Mas ele ama os seus semelhantes. A despeito das guerras e de todas as hecatombes que já vimos, o coração humano não é uma pedra. 

Sendo a nossa espécie a mais numerosa do Planeta ela está propensa a ser a mais desigual de todas. A desigualdade nos chega de várias maneiras, mas pensemos apenas na que nos vem por meio de uma herança genética degenerada ou por qualquer tipo de acidente que nos legue alterações físicas ou cognitivas.  Há sempre o risco de um – ou mais de mais um - dos nossos sentidos não exercer adequadamente sua função sensorial, privando-nos da percepção e exploração amplas do ambiente que nos rodeia.

Somos sete bilhões de criaturas humanas no mundo, o que significa que se todo esse contingente se unisse na mesma causa teríamos sete bilhões de inteligências construindo rodinhas para recuperar os movimentos dos membros de quem os perdeu. Sete bilhões de mentes tentando clarear visões escurecidas.  Sete bilhões de idéias querendo trazer de volta a audição dos que vivem em silêncio. Sete bilhões de cérebros querendo reordenar a coordenação motora de quem não pode dominar sua mobilidade.

É um número gigantesco mas, acreditem amigos, insuficiente, caso não se junte a ele outros sete bilhões de corações  para amar o semelhante, não com aquele amor inerte que entrega tudo à força do destino, como o homem que lamenta a sorte da plantinha de raiz atrofiada. É preciso amar o semelhante com a mesma bravura indômita com que a Natureza nos ama para reparar os erros que ela descuidadamente comete. Não basta construir rodas mecânicas para o cãozinho, é preciso devolver a ele o desejo de correr pelo quintal.

Também não basta a cadeira de rodas para o humano paraplégico, nem os óculos e a bengala para o cego, nem os aparelhos de audição para o surdo. Há que se torná-los aptos a andar pelas calçadas esburacadas e atravessar avenidas cheias de veículos velozes e furiosos. Há que se fazê-los reconhecer a beleza de um jardim em flor, ainda que os olhos não enxerguem as rosas e as hortênsias. Há que se fazê-los apreciar a canção que não ouvem e sentir vontade de sair dançando pelos salões como se fossem eles os próprios os compositores da melodia. Há que se amar o deficiente com a força do amor que move montanhas.

Angelo Humberto Anccilotto (out/2018)