FAKES

( “Mundo mundo vasto mundo, / Se eu me chamasse Raimundo / Seria uma rima, não uma solução...”  - Poema das Sete Faces – Carlos Drummond de Andrade).

Imagino um vídeo que me chegue pelo WhatsApp, ou circule no facebook,  com uma tabelinha perfeita entre Pelé e Zico. Pelé recebe a bola e avança para o campo inimigo, dribla um contrário e passa para Zico, que devolve de primeira para o Rei. O Rei passa de novo para o Galinho, com um toque sutil, encobrindo o zagueiro. Zico mata a bola no peito e fuzila o goleiro: gol magistral da seleção brasileira! Seria extraordinário, mas não seria verdade.

Pelé e Zico não foram contemporâneos, nunca jogaram juntos na seleção, e talvez pudéssemos reparar neste vídeo que, ao comemorarem o gol, abraçados, num momento de distração de quem juntou as imagens, os dois aparecessem correndo para a platéia tendo ambos nas costas o número 10 gravado em suas respectivas camisas amarelas. Toda beleza estética da jogada se tornaria rapidamente na mais vulgar ilusão e a emoção do lance se transformaria numa frustração ou num desejo obsessivo que jamais se realizou.

Nos dias de hoje nossos olhos andam vendo muitas coisas que não existem.  Lembro que certa vez eu e um colega de trabalho executávamos uma tarefa fora de nossa sede. No fim do expediente tomamos o metrô na estação São Judas, em São Paulo, e quando chegamos na estação Ana Rosa, a esposa do meu amigo tomou o mesmo trem em que vínhamos e ao entrar topou conosco  no mesmo vagão. Foi uma cena bonita de se ver. Eles não cansavam de exaltar a coincidência que provocara aquele encontro inesperado. Participei da alegria do casal amigo e seguimos até o nosso destino, conjecturando sobre os mistérios do mundo que ora nos põe juntos, ora nos afasta.

Isso ocorreu há vinte anos, num tempo que em que o telefone celular era apenas uma prospecção e não funcionava nos subterrâneos das linhas férreas do transporte da cidade. Se isso acontecesse hoje, por mais que o casal tentasse fingir a casualidade do encontro, eu saberia que uma mensagem de celular enviada por um dos dois é que teria traçado as coordenadas para colocá-los juntos no trem. Não teria o mesmo encanto, seria apenas um encontro forjado, cuja alegria fugaz se perderia nos momentos seguintes na trivialidade da conversa: “Você demorou para responder minha mensagem...”  “Meu telefone estava sem sinal...”

Olhos, olhos, para quê os quero?  Andamos vendo gato por lebre.  Enviam-nos mensagens falsas nas redes sociais, fotografias adulteradas, a cabeça de uma pessoa em cima do pescoço de outra; inscrições falsificadas, vídeos corrompidos, discursos editados, complementos nominais apartados dos verbos originais. Olhamos tudo isso com tristeza, sabendo que já não podemos confiar naquilo que enxergamos ou ouvimos. Os sofistas se multiplicam e criam uma realidade deliberadamente enganosa.  

Quando eu estava em Santa Catarina, nos momentos de tédio, cansado deste mundo fake, eu ia à praia olhar o mar, a espuma das águas, os barcos dos pescadores, os banhistas, e principalmente as banhistas. E muitas vezes retornava em casa mais infeliz do que saíra. Certas belezas femininas que se banhavam ao sol, não eram verdadeiras. Uma injeção de silicone aqui, outra de botox ali, o bisturi do cirurgião plástico acolá, tudo isso vai moldando corpos e rostos esculturais. O falso e o verdadeiro se fundem a ponto de não mais sabermos que é um e quem é o outro.

Aqui em São Paulo, não tendo o mar para olhar, olho os edifícios pela janela, o concreto cinzento, pinturas desbotadas, telhados encardidos, venezianas empoeiradas. É feio, mas é real. A face da verdade talvez não seja bonita / Sua beleza só enxerga quem nela acredita. É uma rima. Seria uma solução?  

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2018)