OS POBRES DE ANTIGAMENTE

Nossos pais compravam-nos conga número 26, em fevereiro, e em junho já calçávamos 27, em novembro, 28. Então os dedos do pé forçavam e rasgavam o pano e a gente ia para a escola com a unha do dedinho do lado de fora. Não era constrangedor, a maioria dos alunos ia para a escola assim. Havia coisas piores, muitos colegas frequentavam às aulas descalços. Tanto que as escolas primárias nem exigiam uniformes. Não adiantava. Eu me lembro de um menino sempre de pé no chão e que entrou para a Polícia Mirim e ganhou um par de botinas e passou a ir para escola orgulhosamente com ela nos pés. O pé cresceu e, com as estripulias dos moleques que vão chutando tudo o que encontram no caminho, a botina furou, rasgou, literalmente não dava mais pé. Ele terminou o ano escolar descalço porque a Policia só podia fornecer um par a cada doze meses.

Essa pobreza não vinha necessariamente da família, mas do contexto nacional, o Brasil era um país extremamente pobre. A produção nacional, tanto a agrícola como a industrial era pífia. Não adiantava muito desejar uma bola de capotão no Natal porque as lojas só tinham, no máximo, bolas de borracha para vender. A gente se virava jogando com bolas de meia. Também não adiantava muito querer substituir a banha de porco na cozinha, porque os armazéns só tinham óleo de amendoim ou de algodão para oferecer no lugar.

As instituições oficiais funcionavam precariamente. As escolas selecionavam os alunos mais necessitados para fornecer caderno e lápis e muitos pais só aceitavam aquela ajuda quando, feitas todas as somas, concluíam que não tinham mesmo dinheiro para entrar num bazar e comprar dois cadernos de 40 folhas, um lápis preto, uma borracha e uma caixa de lápis coloridos.  Ah, como eram altivos, orgulhosos os pobres de antigamente! Faziam das tripas o coração para não serem dependentes dos governos.

Os primeiros sintomas de uma doença eram tratados por uma benzedeira. Só depois, quando a fraqueza corpo aumentava muito, recorria-se a experiência do farmacêutico, para apenas depois, no terceiro estágio do tratamento, procurar o médico.

A merenda escolar era comprada ou então fornecida em forma de escambo para os alunos que levavam ingredientes para a sopa servida no recreio. Eram muitos os alunos das colônias da roça e eles tinham facilidade de entrar na escola carregando um maço de cebolinha, um punhado de folhas de couve, salsinha, cebola, alho, ovos. Assim recebiam um vale para se alimentarem no intervalo das aulas.

Eram dias difíceis, dias que hoje a gente nem lembra direito ou quando lembra e tenta contar para os mais jovens eles nos olham com certo desdém, achando que é apenas uma forma dramática de contarmos a nossa história. Não, não é dama. Ou se é, ele não se faz agora. Antes se fez naqueles tempos, entre as misérias que o Brasil nos oferecia. Mas trazemos de lá uma grande lição de força e brio: Nunca sabíamos de cor o nome do presidente da República, nem do governador do Estado, nem de senador ou de deputado algum. Por que aprendemos não esperar nada dos outros. Nunca lutamos para reivindicar aquilo que não podíamos pagar. Era uma questão de honra.

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2017)