O GRANDE TRAIDOR

Diz um velho ditado que de manhã, quando o leão acorda, ele sai correndo atrás de uma gazela para sua refeição.  E que quando a gazela acorda, ela se põe a correr para não ser a refeição do leão. Então não importa bem o que você seja: leão ou gazela, comecemos a correr no despertar do dia.

Está certo que velho ditado é só uma força de expressão que eu uso na ausência de um melhor enunciado. Na verdade, esse ditado é novo e deve ter sido inventado por esses palestrantes que ensinam marketing pessoal a quem deseja ter boas referências nas escaladas profissionais: Nunca deixe de correr atrás dos seus objetivos.

Mas o que ocorre, de fato, é que a gazela, quando avista o leão, sabe que está diante de um inimigo. Se o leão correr ao seu encalço não será para abraçá-la e desejar-lhe Bom Dia entre carícias e sussurros. A gazela sabe que o leão é um terrível predador que jamais disfarçou suas intenções alimentares quando se aproxima de sua manada.

E na pastagem serena, a pequena ovelha pressente o perigo: um lobo espreita por trás de uma moita de sapé. A ovelhinha corre para o piquete e se esconde entre ovelhas e carneiros grandes, onde, acaso o lobo vier persegui-la, acontecerá um batalha de coices, cabeçadas e chifres de um lado contra dentes e unhas afiadas de outro. Cordeiros e lobos não se estimam, o cordeiro sabe que o lobo deseja sua carne e suas vísceras.

De igual forma, a galinha sabe que a raposa que visita o galinheiro, por volta da meia-noite, não vem oferecer-lhe o belo pelo como estola para protegê-la do frio. A raposa vem atacá-la pelo pescoço e arrastá-la até o matagal para realizar o banquete. Então, a saída é cutucar o galo para que ele acorde o cachorro e este chame, latindo, o dono do galinheiro. De espingarda em punho, o homem sai lá fora para afugentar o inimigo. Passado o susto, as aves retornam ao sono no poleiro.

Mas o homem que afugenta a raposa e protege o galinheiro é, em última instância, o grande predador da galinha. Apesar de todo cuidado e toda proteção oferecida, mais dia menos dia ele vai matar a galinha, depená-la e cozinhar sua carne aos pedaços e saboreá-lo no almoço. A galinha que confiava no homem, que via nele seu grande protetor, só conhecerá a verdade no último momento de vida, quando a faca afiada degolar sua garganta.

O homem é, em essência, carnívoro. Mas ele costuma tratar muito bem os animais que lhe fornecerão a carne. Assim, ele cuida do boi na invernada, aplica-lhe vacina, serve-lhe sal e ração, providencia água e capim tenro. Às vezes acaricia-lhe as ventas e até mesmo quando o leva para o matadouro providencia-lhe transporte confortável. O boi passa a vida na ilusão de que o homem é seu grande amigo e só descobre a farsa quando entra no frigorífico e se depara com as lâminas girando sobre sua cabeça no corredor da morte.  

Dias atrás, um amigo me levou ao sítio de um amigo dele e o homem mostrou-nos uma pequena criação de carneiros. Era de encher aos olhos a graça de dez ou doze carneirinhos saltitantes que brincavam e corriam pela pastagem. Aquele ali – dizia o dono do sítio apontando com o dedo – aquele ali foi criado com mamadeira. A mãe dele o rejeitou quando ele nasceu e o leite dela secou. O empregado do sítio colhia leite das outras ovelhas, punha na mamadeira e dava para ele mamar. Com o copo de cachaça que ele tinha me servido na mão, achei comovente aquela história e quando ia fazer-lhe um sincero elogio pelo bonito gesto de cuidado que tivera para com o pequeno ovino, ele falou satisfeito: Todos eles vão estar no ponto para o Natal.

Pensei no Natal que vai demorar um pouco ainda, projetei mentalmente o crescimento dos pobres animais e imaginei o triste fim de cada um deles, com seus tenros cortes de carne num espeto sobre um braseiro aceso, enquanto o homem comemorava o nascimento de outro Cordeiro. Afastei-me um pouco da cerca, fui até a mesa da varanda, servi-me mais uma dose de cachaça e olhei com certo aperto no coração os carneirinhos correndo no pasto.

Angelo Humberto Anccilotto  (Ago/2018)