FOGE, TANGO, FOGE!

Antes de levá-lo embora ainda fiz uma prece para São Francisco de Assis e com muita devoção pedi que não o desemparasse, que não o deixasse ser maltratado na nova casa, que todos o acolhessem com  mesmo carinho que foi acolhido por nós, a três anos atrás. Mas, sabe-se lá que mistérios existem nas nossas orações. Talvez o santo desconfie da nossa fé, talvez tenha outro plano diferente para o animal, talvez a nova família não o merecesse, talvez nossa conduta ao longo da vida não seja digna de merecer a interseção celestial... Quem há de saber por que as nossas súplicas ao Céu nem sempre dão o resultado que esperamos?

No outro dia de manhã coloquei-o no carro, viajei 600 quilômetros com ele dentro de uma jaulinha e à tarde entreguei-o no novo endereço. Mudei recentemente para um apartamento, o mesmo de onde saí há quatro anos e Tango, eu bem sabia, não era bicho para viver entre quatro paredes de um edifício, olhando tantos telhados vermelhos lá embaixo. Ah, os telhados! Como ele os escalava lá em Santa Catarina, como andava sorrateiramente pelas cumeeiras nas madrugadas de lua cheia!  Passos tão leves, apesar da força das patas, que ninguém lá embaixo acordava.  Bicho livre, sem rumo, sem laços, voltava para casa quando o dia amanhecia, procurava comida  e água e ia dormir. À tarde acordava, comia e bebia de novo, brincava com a gente, pedia um afago na cabeça e ia para o portão apreciar o anoitecer. Quando a noite caía por inteiro lá ia ele para as ruas, para os muros, para os telhados.

Tango não poderia viver enclausurado num apartamento, sob as mesmas regras de convivência social a que são submetidos os condôminos. Levemo-lo, então, para uma casa com quintal para tomar sol e chuva.  Mas, criamos um gato em casa por longo tempo, amamo-no com amor pueril que ignora no animal seu mais remoto instinto de defesa e, distraidamente, abrimos a jaulinha ali mesmo na calçada. O cão do vizinho avançou, Tango correu, passou entre a grade do portão entrou pela porta da sala. Inocentemente rimos do episódio e continuamos conversando ali na rua e meia hora depois fomos procurá-lo debaixo do sofá, das camas, dos outros móveis e como não o encontrássemos, nos demos conta da nossa triste ingenuidade. Um gato jamais se esconderia embaixo dos móveis de uma casa que ele jamais habitou. O que ele fez foi entrar correndo pela porta da sala e sair correndo pela porta da cozinha, saltar o muro dos fundos, depois saltar dezenas de outros muros até encontrar um lugar seguro, onde os cães do bairro não pudessem incomodá-lo.

Não nos inquietemos, logo ele volta; gato faz assim mesmo, dizíamos uns aos outros. Passado dois dias, Tango não apareceu e mais uma vez o raciocínio nos mostrou o quanto fomos tolos. Como ele iria voltar se nunca morou naquela casa? Seu único contato com aquela residência foi atravessar dois cômodos e o corredor em fitipáldica velocidade. Não teve tempo de guardar na memória o lugar onde iria morar, não obteve faro suficiente das coisas do lugar para trazê-lo de volta mais tarde.

Assim, passou-se uma semana, e agora duas e, apesar das buscas realizadas e os anúncios divulgados, Tango já pode ser considerado desaparecido. Ele porta uma coleira branca com uma plaquinha metálica com o nome e o telefone de contato gravados nela, mas esperar uma ligação de alguém que porventura o encontre pressupõe acreditar demais na humanidade, coisa difícil nos tempos atuais.

Então, se houver um sinal de telepatia entre nós e os bichos pelo qual eu possa enviar uma mensagem, eu digo: Foge, Tango, foge! Tal como eu o aconselhava quando você ainda era um filhotinho para não ir na casa daquele homem que não gostava de gatos, para não ir também naquele depósito que tinha um cachorro mal encarado, e também não dar bola para as crianças malvadas da rua, pois elas iriam puxar seu rabo e suas orelhas, eu o aconselho  agora a fugir dos quintais que tenham cães barulhentos e principalmente fugir dos homens que se aproximam de você estalando os dedos e lhe dirigindo a palavra numa onomatopeia incompreensível. Foge também das mulheres e das mocinhas que te acham uma gracinha. Você não é um bibelô de cristaleira e logo perceberão isso quanto sentirem sua vértebra deslocada embaixo do peito, que lá em casa nós ajudamos a curar.

Foge, Tango, foge de toda espécie de falsidade de quem lhe prometer um lar, mas antes vai precisar  saber se as outras pessoas que moram com ele te aceitam também. Foge, volta para Santa Catarina, se possível. Lá tem vizinhos que te conhecem e podem te acolher. Quem sabe aquela minha prece ainda esteja valendo e São Francisco não te ajude a chegar lá?  Ou então, vem aqui para São Paulo. Você não sabe, mas eu tenho dormido com a janela do quarto aberta e imagino você escalando o meu prédio até o oitavo andar e saltando na cama como você fazia, às vezes, quando voltava das suas baladas e contava suas aventuras ronronando sobre o cobertor. Sei que isso é impossível, mas como é bom imaginar. Ah, que bela aventura você teria para me contar.

Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2018)