CROATA ACIDENTAL

Estou escrevendo esta crônica no dia 11 de julho de 2018, dia em que a Croácia eliminou a Inglaterra e se credenciou para disputar a finalíssima da Copa do Mundo deste ano, na Rússia. Essa introdução é necessária porque, daqui a quatro anos, ninguém mais vai lembrar quem disputou a final da Copa, e ninguém vai entender por que fiz a crônica. Mas hoje, me senti croata.

Antes de prosseguir quero contar uma passagem dos tempos antigos de Guaraçaí. Daquele tempo que se faziam exposições agropecuárias na cidade e dava-se premio de campeão ao proprietário do maior porco, da vaca mais leiteira, do melhor bezerro, do cavalo mais imponente, da maior espiga de milho, da maior abóbora, etc.. E aconteceu de haver na cidade uma senhora de origem japonesa que cultivava repolhos na chácara. E entre os repolhos havia um de aproximadamente cinco quilos. Um vizinho viu aquilo e sugeriu que levasse o repolho à Exposição, mas ela não falava muito bem a nossa língua, então o vizinho se encarregou de retirar o repolho e credenciá-lo junto às formalidades do evento. Terminada a exposição, o repolho obteve prêmio de excelência entre os hortifruti e o homem foi correndo contar à proprietária. Ele fazia festa, falava em prêmio, em primeiro lugar, em admiração do público, ela que não entendia bem o que se passava, sorria e comemorava também. Bom, né?  Era tudo o que ela sabia dizer.

Pois hoje, sou como esta senhora agricultora de muitos anos atrás que não fala a língua da Croácia, mas vejo a euforia do povo daquele país que vai disputar a final da Copa do mundo. E por um momento sinto um leve desejo de ser croata.  Ando cansado de ser brasileiro, queria pertencer a outro país, senão por nacionalidade, ao menos por acolhimento. Queria participar da alegria desse povo, enrolar uma bandana xadrez na cabeça e sair pelas ruas, cantar (em português mesmo), beber cerveja, comemorar.

Aquela senhora agricultora não saiu do Japão para ganhar prêmio de produtora do maior repolho da cidade, ela apenas veio ao Brasil plantar verduras e legumes e cuidou tão bem da sua plantação que um deles tirou o primeiro lugar. Assim também a Croácia não foi a Rússia para ser campeã do mundo. Foi lá jogar futebol e jogou tão bem que acabou disputando o título. Bom, né?

 Angelo Humberto Anccilotto (jul/2018)