GRALHAS E PINHÕES

Como, enfim, o inverno chegasse, não havia muito o que fazer na praia, a não ser buscar uma tainha para o almoço na vila dos pescadores.  Deixemos, então, o mar para os pescadores e a praia para as gaivotas e olhemos para o lado oposto, o lado em que ficam as montanhas. O inverno faz florescer os manacás, e os manacás-da-serra estendem uma colcha de retalhos nas encostas das colinas, sobre as samambaias, as bromélias e as embaúbas. Qual a criança que, hoje, entre 60 e 70 anos de idade, não viu a mãe ou a avó juntar retalhos coloridos até formar uma colcha para cobrir a cama? Assim são as montanhas no inverno, revestidas de retalhos lilás, brancos e violetas que brotam do mesmo ramo. São poucas as plantas que fornecem flores multicoloridas, por isso, admiremos os manacás nas vertentes das montanhas que margeiam as estradas.

Mas, tomemos a estrada, vamos com o carro em marcha reduzida pelos aclives dessas Bê-Erres cheias de curvas. Subamos a montanha sem pressa, estacionemos em algum belvedere e olhemos os vales lá embaixo. Vamos até a pequena barraca cercada de lona, e adquiramos, por cinco reais, dois punhados de pinhão cozido, ainda quente, e sigamos viagem para cima, como quem eleva a alma sobre as inquietudes do nível do mar.

E lá em cima, entre as rochas e a relva rasteira, começam a despontar as araucárias. A Bíblia não conta, mas Deus, quando fez o mundo, cansado de dar forma às suas criações e sem cabeça para imaginar algo novo para as florestas já crescidas, promoveu um concurso entre os anjos mirins, cujo prêmio seria dar vida à arvore mais inusitada e mais original que os anjos-criança conseguissem desenhar. Deu início ao certame e foi descansar um pouco. Dias depois, os pequenos querubins entregaram-lhe seus projetos. O vencedor foi o anjinho que desenhou uma planta alta, com um longo caule redondo e forte e foi fincando ramos perpendiculares em todas as direções, a partir da metade do tronco, formando um pinheiro de copa larga e arredondada.

Deus gostou do desenho e, como havia prometido, enterrou a matriz no meio de uma montanha e ali nasceu a primeira araucária. Quando ela cresceu, outro anjinho da turma chegou até Ele e disse: “Senhor, posso sugerir uma coisa? Por que o Senhor não coloca uns passarinhos nos galhos dela?”  E Deus então pediu que o anjinho desenhasse um passarinho para habitar os ramos daquele pinheiro e comer os seus frutos. O anjinho desenhou uma ave do tamanho de uma pomba e pintou-a de anil, no mesmo tom daquelas nuvens de chuva que despontam no horizonte nas tardes de verão. Deus olhou o desenho com carinho, cofiou as barbas, colocou-o sobre o galho e batizou o pássaro desenhado de gralha-azul.

Não li essa história em canto nenhum, apenas a imaginei ao ver as aves cruzando a estrada e saltando de um pinheiro ao outro. Uma araucária apinhada de gralhas- azuis, disputando os pinhões, é a cena mais bela na paisagem da montanha. Merecia uma foto e a foto mereceria um concurso. Então me veio a ideia de que talvez esse concurso não faz mais sentido, por que ele já aconteceu a muito, muito tempo atrás, lá no começo do mundo.

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2018)