AS CHUVAS DE ANTIGAMENTE

Faz bem, de vez em quando, pensar nas coisas da infância. Não apenas nas cosias que fazíamos, mas também nas coisas que aconteciam independentes da nossa vontade. Como a chuva, por exemplo, embora tenha para mim que muitas chuvas aconteciam antigamente pela força da oração dos lavradores, principalmente da oração crianças, filhos dos homens que lavravam e plantavam. Quando o milho emperrava e não soltava pendão, quando os cachos de arroz embranqueciam em vez de amadurecer, quando as vagens de feijão não vingavam e a florada do cafezal não abria, era hora de rezar. Quando os açudes começavam a secar, formando no leito cascões de terra esturricados, como ladrilhos despregados do fundo de uma piscina vazia, e o gado começava descer cada vez para baixo a procura de água, era preciso rezar. E quando os poços dos quintais começavam a minguar, era preciso chamar o velho Côco para escavá-los.

Num tempo em que as pessoas se vestiam com mais rigor e sobriedade, ainda que mais humildemente, o velho Côco, cujo nome de batismo eu nunca soube, foi o primeiro homem que vi usando bermudas em Guaraçaí. De calças curtas e pés descalços, descia por uma corda carregando uma alavanca pontiaguda e uma picareta até o fundo das cisternas, lá cavava e removia muitos metros cúbicos de barro e piçarra até furar com a ponta da alavanca o veio do lençol freático. Mas se não chovia, todo o trabalho do velho poceiro não durava muito. O veio secava e o lençol descia. Então, era preciso rogar aos Céus pela chuva.

Mas além dessa chuva rogada, que São Pedro distribuía com moderação, às vezes em conta-gotas, como o dono de um reservatório que precisasse administrar com austeridade o baixo volume de água para reparti-la com justiça e equidade em todo planeta, aconteciam as chuvas inesperadas, aquelas que apanhavam os homens na roça e as mulheres com o varal apinhado de roupa. Uma nuvem azul-escura se formava rapidamente encobrindo sol, um trovão rotundo ia rolando no ar, deixando ecos para trás, até se acabar no horizonte, e a chuva começava a cair em pingos largos e esparsos e ia se tornando mais intensa e compacta. Então os homens da roça corriam para se proteger nos ranchos a beira do caminho, e quando o trabalho se dava nos descampados, o jeito era se abrigar embaixo de uma árvore que porventura existisse no lugar. Viemos a saber depois que isso era um grande risco, pois nos desacampados as árvores altas atraem as descargas elétricas das nuvens e os raios das descargas são fulminantes.

Mas eram passageiras essas chuvas, que aconteciam geralmente em dezembro e janeiro. Depois que passavam, no resto da tarde voltava a haver sol no céu e vida na terra (e um pote de ouro além do arco-iris). As crianças saíam pelas correntezas das enxurradas e a lama das enxurradas agravava as frieiras nos pés. No dia seguinte era preciso apanhar um limão, cortar no meio, aquecer na chapa do fogão e comprimir contra a micose. Um flagelo dermatológico para dedos ainda tenros, mas de eficácia inquestionável.

Mas também aconteciam chuvas durante a noite. As vezes fortes temporais, como se o céu e a terra entrassem em conflito armado, mas não vale pena pensar nelas. O que vem à lembrança são as chuvas mansas que se prolongavam pela noite adentro. Em tempos de água escassa, minha mãe deixava baldes e bacias embaixo das goteiras para lavar roupa na manhã seguinte. É essa chuva amiga que ouço lá fora em certas madrugadas quando desperto de algum pesadelo, sonhado ou real. Mesmo em noites quentes, de céu estrelado, ouço da cama a água que cai nas telhas, corre pelo telhado e se lança nas bacias cheias: tigluc, tigluc. Em certas noites de mau presságio esse ritmo das boas chuvas de antigamente que pingam na memória acalantam o meu sono.

 Angelo Humberto Anccilotto    (Jan/2013)