ACOMPANHANTE

Não vos assunteis, o título não tem nada a ver com antiga prática de executivos levarem scort girls nas viagens de serviço.  O tema é bem mais sofrido. Esse ou essa acompanhante é aquela pessoa que se dispõe a acompanhar um enfermo num quarto de hospital.

Mas o que faz um acompanhante num quarto de hospital? Teoricamente aperta a campainha para chamar a enfermeira, quando o doente necessita de algum cuidado extra. Moleza! Basta manter os olhos abertos e reparar cada movimento que ele venha a fazer.

Assim pensava eu, até que às oito da manhã a médica entrou no quarto e me fez uma torturante arguição:

- O intestino da paciente funcionou normalmente?

- Não sei, doutora, eu cheguei faz uma hora, não estive aqui à noite.

- E a outra pessoa não comentou nada?

- Não senhora, doutora! Ela deveria ter comentado?

Prosseguiu sem me responder:

- Mediram a temperatura já?

- Já, sim senhora!

- Quanto deu? 

- Não sei, a enfermeira não me falou...

- E a pressão?

- Também.

- Quanto estava?

- Também não sei... Essas coisas não ficam anotadas no prontuário dela?

- Ficam, mas eu não estou com o prontuário aqui.

Assim como entrou ela saiu, sem sequer me dar qualquer informação sobre o estado de saúde da paciente. Havia melhorado? Piorado?  E quando chegassem as visitas e perguntassem o que o médico disse, o que eu responderia? Que a médica não me falou?...Ah, definitivamente não sirvo para essa função!  Que porcaria de acompanhante sou eu que não sabe a pressão do doente, que não sabe se está com febre ou não, que não sabe nada de nada, cuja presença no quarto é ignorada pela médica e pelas enfermeiras. Eu devia ter me preparado melhor? Existe curso de formação de acompanhantes de enfermos?

E ocorreu que a paciente “sob meus cuidados” teve uma crise respiratória. Apertei a campainha e a luz vermelha do corredor sob a porta do quarto se acendeu. Fiz certo? É só isso? Devo ficar aguardando? Vou para o corredor esperar o socorro. Passa uma enfermeira com as mãos dentro do jaleco branco e eu a intercepto chamando-a para ver a paciente. Ela responde que aquela não é a ala dela, mas que eu não me preocupasse porque “logo a enfermeira dessa ala virá”.

Recolho-me ao quarto outra vez e tomo providências banais como regular o ventilador, enxugar o suor do rosto da paciente, ir ao corredor novamente para pedir ajuda. Passam outras enfermeiras olham a luz vermelha acesa, penso que vão entrar no quarto mas seguem reto. Fico sem saber se devo chamá-las, receio que também não sejam daquela ala. A acompanhante do outro leito me sugere que eu vá em busca de socorro. Saio, interpelo todos que vejo de jaleco branco e a resposta é sempre a mesma: “Calma, a enfermeira já vai...”

A luz vermelha permanece acesa e a enfermeira que “já vinha” não veio.  Quando veio era um pouco tarde. Houve parada respiratória, complicações pulmonares e ela chamou um monte de gente para ajudar. Todas aquelas enfermeiras que não eram daquela ala vieram, ligaram o desfibrilador e conduziram a paciente para UTI. 

Não fui um bom acompanhante. Não tive competência para informar à medica qual a temperatura e qual a pressão da paciente. Acatei a recomendação das enfermeiras e mantive-me calmo, quando talvez devesse gritar por socorro. Em consequência a doente que eu acompanhava veio a falecer no dia seguinte.

Angelo Humberto Anccilotto (Dez/2015)