A PORTA

Conta-se uma piada lá da terrinha que quando um gajo vai à autoescola para realizar exame de motorista, aplicam-se-lhe, em primeira mão, testes teóricos. E entre as questões a que o futuro motorista é submetido, frequentemente surge esta: “Para quê serve o travão (freio de mão) do automóvel?” E o examinado então responde inocentemente que, ora pois, serve para travar o veículo, ao que o examinador computa-lhe como resposta absolutamente errada. E corrige, a título de ensinamento, o pretenso chofer: “nunca se esqueça disto, está bem? - o travão serve para travar e destravar o automóvel.”

Pois estou eu neste momento, absolutamente sem assunto a olhar a porta da cozinha de minha casa. Antigamente quando eu fazia a crônica para a Folha de Guaraçai, eu tinha um lugar reservado, um quarto menor em meu apartamento que virava escritório. E lá, enquanto o assunto não surgia, eu mordia a tampa da caneta, pois o texto era feito primeiramente à mão para depois ser datilografado. Nunca consegui pensar à maquina. Hoje, não preciso mais de caneta e muito menos de uma escrivaninha de escritório. Coloco o Note na mesa da cozinha e a crônica sai entre pratos e talheres, palitos, biscoitos e salgadinhos.

Daí se justifica então esse meu olhar para a porta na esperança que algum assunto importante e inesperado advenha por ela. E de súbito me vejo na escola primária realizando a prova de um bimestre qualquer: “Para quê serve uma porta?” – seria a pergunta mais grave que a professora lançaria ao teste. E acaso eu respondesse que serve para fechar a casa, a professora haveria de anotar sobre a questão, em caneta vermelha, aquele longo C cortado ao meio o que iria significar que minha resposta estava meio certa. Sim, havia também o meio certo naquele tempo em que as escolas, e principalmente o mundo, ainda classificavam nossas respostas como certas ou erradas. Com o tempo tudo se nivelou e desapareceu a ancestral dicotomia certo-errado, e tudo ficou no tanto faz como tanto fez.

Mas, afinal, para que servem as portas de uma casa, esse retângulo mais ou menos padronizado de 2,10 metros por 90 centímetros que ora nos prende ora nos liberta? Se eu disser que serve para me proteger, estarei admitindo que ela serve também para me por em risco. Somos seres humanos, criaturas superiores e espécie que se autodenominou imagem e semelhança de Deus. Vivemos em civilização, por que razão ainda cismo ao mantê-la aberta? Por que ainda existe entre essa avançada espécie de seres viventes a tola precaução de fechá-la antes de dormir, como se invocássemos proteção e segurança para o nosso sono? Não há leões, nem tigres, nem leopardos, nem sequer lobos selvagens que venham nos abocanhar à traição e, no entanto, sentimos cada vez mais medo e aumentamos as trancas e tememos abri-la na manhã seguinte.    

Dez mil anos de civilização não serviram para muita coisa. A calada da noite nos assusta e ainda rodamos a chave na fechadura das portas como o homem primitivo arrastava a pedra na entrada da caverna. Mas acho que agora estou pensando como o gajo que faz exame para motorista, lembrando que travão serve apenas para travar o veículo. Ora, pois, a porta de casa serve muito bem para abri-la e não apenas para fechá-la. Precisamos nos lembrar mais disso.

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2018)