A MANHÃ QUE EU PERSEGUIA

“Chego a ver Leônidas de molejo novo pedindo vaga no selecionado brasileiro: E agora Feola, o que é que o Vavá tem que eu não tenho?”

Nunca me esqueci desta pergunta. Ela era parte de uma crônica do meu livro de Português da sexta série. Sexta série era uma denominação nova que entrava no lugar da segunda série ginasial, ou seja, um aluno para estar na sexta série devia ter estudado os quatro anos primários, se matriculado no ginásio, vencido a primeira série ginasial e chegado a esse status que hoje eu não tenho a mínima ideia da denominação que dão ao estágio equivalente a esse.  Estávamos no começo dos anos 1970 e como a crônica fora escrita por volta de 1960 e 1960 já está um bocado afastado de nós, convém esclarecer alguns pontos. Primeiramente dizer que o título da crônica era “NA BASE DO ANO 2000”. Leônidas era o Leônidas da Silva, um atacante fulminante, astro brasileiro nas Copas do Mundo de 1934 e 1938 e que havia jogado futebol até por volta de 1950. Vavá era seu herdeiro, titular absoluto nas Copas de 1958 e 1962. Feola era o técnico no tempo da crônica e selecionado brasileiro era um dos jeitos que tratavam a seleção brasileira naquele tempo.  Mário de Moraes, o autor da crônica, então desconfiado do progresso rápido da ciência, imaginava que se em 1960 o mundo já estivesse no ano 2000, Leônidas poderia muito bem recauchutar o joelho, reivindicar vaga na seleção, mesmo com mais de 50 anos de idade, e recuperar o posto que Vavá, em melhores condições físicas, tomou para si.  Um cronista em 1960, olhando para o futuro, imaginava que as clinicas médicas no ano 2000 manteriam estoques de fígados, corações, rins, baços, medulas e kits completos de joelhos para troca imediata. O paciente chegaria para a consulta, o médico dava uma olhada rápida no órgão danificado e diagnosticava: Esse já deu o que tinha que dar. Vamos ter que trocá-lo. Só vou ver se tem algum no estoque compatível com a sua estrutura física, e a gente já pode providenciar isso agora mesmo. De 1960, olhando para o ano 2000, o corpo humano seria uma espécie de fusquinha que toda oficina de periferia sabia consertar. E essa expectativa vinha embasada na grande repercussão do primeiro transplante de coração feito no Brasil, em 1968. 

Em paralelo a esse progresso medicinal, na época em que li esta crônica os americanos haviam recém-chegado à lua. Então, o mundo vivia uma inebriante euforia.  E essa euforia remetia especialistas e escritores a projetarem o futuro. Contagiado por essa euforia, eu, com meus doze anos, traçava na imaginação uma evolução tecnológica espacial em forma de progressão geométrica. Se em 1969 chegamos à Lua, em 1979, estaremos em Marte, em 1989 em Jupter, Em 1999 em Plutão e em 2019 já estaríamos com os pés fora do nosso sistema solar. Enquanto os astronautas avançavam no espaço iam deixando para trás um vasto intercâmbio do homem com planetas colonizados. No ano 2000, estaríamos comprando passagens espaciais e não mais passagens aéreas. 

Eu entraria no século XXI com 40 anos de idade e entrar no século XXI seria como ser arremessado através de uma janela para dentro de um mundo que ia sendo rapidamente construído pela ciência. Então, sonhei com esse dia, com essa manhã em que eu despertaria num quarto irreconhecível e admiravelmente novo, onde o homem também fosse outro, já tendo deixado para trás suas guerras e suas mesquinharias e se atirado a ideias renovadoras que amparassem e fortalecessem a nova era tão sonhada.

  E eis que entrei no ano 2000. Não catapultado através da janela como eu imaginava, mas pela porta da frente, andando naturalmente e comendo a poeira da estrada.  Olhei em volta e não achei Leônidas. Vavá continuava absoluto, porque no ano 2000 não existia molejo nenhum para substituir os desgastados meniscos de um jogador inativo. Leônidas continua simbolizando os atletas que o tempo aposentou compulsoriamente e para os quais não há medicina esportiva que traga de volta.  Mas, e fígado? Coração? Rim? Medula? Pulmão? Tem? Tem, mas numa quantidade muito ínfima, muito aquém daquela que imagináramos lá em 1970. No hospital, quando o médico constata que o caso é de transplante ele coça a orelha para dar a notícia ao paciente e, constrangido, informa que ele terá de esperar na fila por tempo indeterminado.

Quanto às viagens interplanetárias, já avançamos quase um quinto do século XXI, e o que se vê por aqui são esporádicas sondas fotografando o solo de Marte.  A corrida espacial, agora sabemos, era só uma aposta de egos entre americanos e soviéticos para demonstração de força nos tempos chamados de guerra fria. Continuamos comprando passagens aéreas e só vamos, quando muito, a outros continentes, viajando nos mesmos aviões de propulsão a jato e gastando o mesmo tempo de viagem de quarenta anos atrás. Apenas aumentaram o número de aeronaves trafegando no espaço aéreo internacional e o tamanho da fila de embarque nos aeroportos.

Quanto ao homem do ano 2000, nenhuma novidade. Ele continua fazendo suas guerrinhas, seus terrorismos, suas fomes, suas politicas sujas, contando suas mentiras, com algum incremento nos métodos, e assim se vai indo. Confesso que essa manhã tão igual e tão comum em que despertei no século XXI não é exatamente a manhã em que desejei acordar dos meus sonhos lá da sexta série ginasial. Não fosse pelo número de luzinhas vermelhas, verdes e azuis que piscam na penumbra do quarto dentro dos painéis das dezenas de aparelhos eletrônicos que circundam nossa cama e pela facilidade de dizer bom dia a um amigo ou parente a milhares de quilômetros por meio da fabulosa de rede de comunicação disponível, a impressão seria de que despertei, como Taiguara, no mesmo velho e triste mundo antigo, movido a querosene.

Angelo Humberto Anccilotto (Abr/2018)