OS FAVELADOS DO BRASIL

Não é mais correto referir-se a uma pessoa como favelada. As favelas passaram a ser vistas como comunidades, iguais a tantos outros tipos de coletividade que existem por ai, e seus habitantes deixaram de ser discriminados, passando a ser vistos como cidadãos iguaizinhos aos indivíduos que habitam em qualquer outro perímetro da cidade. Mas tomemos o termo emprestado dos tempos em que o Brasil não era tão rigoroso com a nomenclatura de suas classes sociais.

Nascido no interior, eu nunca soube bem o que seria uma favela, até que, aos 18 anos fui morar em São Paulo, e quando a gente vai a São Paulo, por qualquer das rodovias que se tenta entrar na cidade, a comissão de frente que nos recebe com o cartão de boas vindas é sempre uma favela. As grandes metrópoles possuem um pequeno núcleo que centraliza o que de melhor possa existir em termos de infraestrutura urbana, logo depois vem a periferia onde se assiste à “boa vida” do centro, depois vêm os subúrbios, geralmente o ponto final dos ônibus e dos trens, e depois, naqueles terrenos que sobram entre córregos e morros, formam-se as favelas. São terrenos ocupados à revelia da lei, onde se erguem casebres de papelão, de madeiras tiradas de caixotes ou de sobras de construção, ou tijolo com pouco cimento para travar as paredes. Isso foi o que vi em 1978, ao chegar em São Paulo e, mais que isso, vi esgotos correndo a céu aberto, bastando abrir a porta da casa para a lama da água podre que vazava dos pequenos córregos bater na soleira e molhar os pés das crianças. E o miolo das favelas era, geralmente, reservado para o tráfico e consumo de drogas. Então a grande pergunta era: Como é que uma família pode morar ali? Gozam de plena saúde na falta completa de saneamento? Desenvolvem boa índole ao crescerem rodeados de fora-da-lei?  A resposta era que sim, que apesar da influência do meio, as favelas produziam cidadãos de bem. Só que a um sacrifício muito maior dos que em outras áreas. Não é fácil manter-se saudável quando há riscos para a saúde que vem dos esgotos, das paredes úmidas, da água sem tratamento, etc. Não é fácil manter-se digno quando há tentações para o crime visíveis aos olhos das crianças.

Mas deixemos as favelas de lado porque elas, bem ou mal, ganharam urbanização e policiamento, hoje têm asfalto, postos de saúde, escola, agências bancárias e butiques e passaram a ser vistas como comunidades que abriga cidadãos e não favelados. Ponto final. Vamos falar de uma favela que ainda não se urbanizou: a grande favela Brasil.

O Brasil é uma favela em cujo cerne prevalece o crime. Em cujos esgotos escorem a céu aberto os detritos da lavagem de dinheiro. Em cuja vizinhança há sempre um falsário aplicando-nos um golpe. Em cujas vielas sombrias teme-se a morte. Nesta imensa favela ainda se morre pela precariedade do sistema de saúde. Ainda nos trancamos em casa pelo déficit de segurança. Ainda pagamos elevados impostos pelas falsas promessas do seu comando geral.

É possível ser um cidadão de bem nesta favela? É possível manter a dignidade quando a corrupção chega tão perto de nós todos os dias? É possível não ser contaminado?  Minha mãe costumava dizer que “viver tem de muitos jeitos”.  E o jeito do brasileiro viver é esse: amedrontado, desconfiado, cercado de maus exemplos pelos quatro lados, à margem da educação e da justiça, à margem de ideais mais nobres, uns lutando para não se corromperem na catadupa de crimes que são revelados todos os dias, outros resignados com o infortúnio ainda sonham com um possível resgate dos valores perdidos. Esse é o nosso jeito de viver. Uma vida de favelados entre os córregos e os morros da consciência nacional, com o esgoto passando na frente da nossa porta, num território sem lei de um país sem moral e sem ética.   

Ângelo Humberto Anccilotto (Out/2017)