O SINO

Eu ia pela Rua São Bento, no centro velho de São Paulo, e lá na última quadra, já perto do mosteiro, onde há dezenas de ambulantes que esparramam DVDs, controles remotos, chips de telefone móvel, pen drive, caneta espiã e outras centenas de miniaturas eletrônicas, havia uma mulher que vendia sinos. Aproximei-me. Ela tinha quatro sinos, um bem pequeno que ela badalava para se fazer anunciar à multidão, e os outros maiores em tamanhos sequenciais. Comecei a observar o último, o maior deles.

 Não estou falando de um grande sino que pudesse decorar a entrada de uma fazenda, preso no esteio de uma porteira, que um visitante pudesse acionar para anunciar sua chegada. Falo de um sino com uma boca de 15 centímetros de diâmetro, se tanto, e uma manopla de no máximo 10. Sino de bronze, com pintura dourada, tenho o ímpeto vulgar de adquiri-lo e sair tocando pelo centro de São Paulo, como um profeta ensandecido a proclamar não sei que mistério divino a um povo descrente do mundo e da vida.

 Mas não estou sozinho, um colega de trabalho está comigo e se admira com o meu encantamento. Pergunta se pretendo comprar um sino. Digo que não, que estou apenas olhando. Ele não entende e eu também não explico, mas aquele objeto de bronze me transporta velozmente no tempo. Estou agora sentado no meio-fio da Rua Nossa Senhora Aparecida, muito perto das oito horas da manhã, aguardando compenetradamente que nos próximos minutos um sino igual a esse vá soar alto do pátio do Grupo Escolar Valeriano Fonseca e uma multidão de meninos e meninas começará a formar fila para a entrada na classe. Depois disso, um outro toque para que se estabeleça silêncio total no pátio e logo em seguida um terceiro sinal será dado como  ordem para a entrada nas salas.

 Estudei no Grupo Escolar Valeriano Fonseca de 1967 a 1970, o que totaliza perto de 850 dias letivos. O sino tocava três vezes antes do início das aulas, depois tocava para a saída do recreio e meia hora depois para o retorno às salas, e finalmente ao meio-dia, para encerrar o expediente escolar. Seis vezes ao dia multiplicado por 850 dias, posso dizer sem exagero que ouvi aquele sino tocar perto de cinco mil vezes.  Guardo na memória o som agudo enviando a ordem de iniciar as aulas ou autorizando a nossa saída, mas guardo sobretudo a lembrança das mãos que faziam aquele sino soar.

 Dona Gessi sabia fazer aquele ritual sonoro como ninguém. O som que nos mandava para sala de aula era o mesmo que nos libertava quatro horas depois. Nas suas mãos o sino balançava no ar sempre no mesmo ritmo, e o sinal saía sempre igual, nem mais longo nem mais curto, nem mais alto nem mais baixo, contínuo, sem intermitências, até ficar um eco no ar que de manhã  encobria a algazarra da criançada e ao meio-dia despertava o alvoroço da saída. Pontual, nem um segundo mais tarde, nem um minuto mais cedo.  

 Pelo sino da Rua São Bento, prosaicamente colocado à venda no tabuleiro de uma comerciante de rua, encontro um pedaço da minha vida. Dona Gessi compartilhou a educação de toda uma geração em Gruaraçaí. Na voz do sino que ela tocava, ouvi cinco mil vezes não apenas o rugido metálico do bronze, mas uma mensagem de compromisso, de correção e empenho no trabalho.  Não penso em levar para casa esse sino que a mulher quer me vender; eu não teria o que fazer com ele. Enquanto ela vai diminuindo o preço na esperança de realizar o negócio, mantenho-me em silêncio, de ouvidos bem apurados, ouvindo longe, muito longe, um outro sino tocando na infância.   

 Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2013)