ENSINEM ÀS CRIANÇAS

Segundo a revista National Geografic este ano o mundo atingirá a marca de sete bilhões de habitantes. Existe a probabilidade de que em 2045 chegue a nove bilhões. Nunca antes na história deste planeta o contingente humano alcançou esse número. Parece óbvio demais esse raciocínio, mas não é. Ele nos leva a conclusão de que a humanidade nunca precisou conter o avanço da população na Terra. Nunca atingiu uma determinada marca e depois recuou, avançou de novo, recuou mais uma vez, deu um tempo, cresceu de novo, mais ou menos como uma campanha eleitoral em que um candidato atinge um percentual de votos, depois cai, sobe de novo; cai mais um pouco e torna a subir. A curva do crescimento da população no tempo é, na verdade, uma reta.

Calcula-se que a dois mil anos atrás viviam no mundo trezentos milhões de pessoas. Apenas por volta do ano de 1.600 é que esse número dobrou, passando a seiscentos milhões. Queimemos etapas e vamos direto para 1950. Nessa época havia dois bilhões e meio de pessoas. Em 2011 temos sete bilhões. Pode-se dizer que o crescimento populacional revela uma progressão geométrica. (A população da Terra cresce em progressão geométrica e os meios de subsistência só podem crescer em progressão aritmética - Thomas Maltus, 1803).

A grandeza dos números pode confundir e perverter nossa percepção a respeito dos riscos que o planeta corre. Façamos então uma maquete e passemos a observar as consequências que esse crescimento trás para o mundo. Imagine caro leitor, que você se matriculou num curso qualquer que tem duração de um ano. Vamos pegar a mesma escala de aumento da população e reduzi-la cem milhões de vezes. Onde havia dois bilhões e meio de pessoas passa a ter vinte e cinco apenas.

Pois bem, você apareceu na sala para o seu primeiro dia de aula do curso. Lá já estavam outros vinte e quatro alunos; você foi o vigésimo quinto. E nos dias seguintes foram chegando mais estudantes. Dois num dia, três no outro, quatro na semana seguinte, ao mesmo tempo em que alguns alunos mais antigos também iam deixando o curso. Mas a entrada dos novos acontecia numa proporção bem maior que a saída dos antigos. E você, que no início do ano era parte de uma turma de vinte e cinco, agora já divide o mesmo espaço com setenta e cinco colegas.

À medida que chegam novos entrantes, sem que saia gente na mesma proporção, é preciso arrumar a sala para acomodar essa gente. O espaço é pequeno, mas é preciso colocar mais cadeiras e as cadeiras sobressalentes começam a ficar desordenadas na sala. O corredor fica estreito demais, em certas áreas da sala ninguém consegue circular. Começa a haver barulho, muitos não entendem a matéria lecionada, começam a propor uma nova didática, você fica confuso, e já não sabe mais o que está fazendo ali.

 Torna-se necessário reprogramar os intervalos.  Os sanitários são poucos para tantos alunos, a água fica escassa, faz fila em torno do bebedouro. O coffee- break antes muito farto, começa a ser servido sem biscoitinhos, apenas com café puro. Alguém reclama da luminosidade da sala, é preciso fechar as cortinas. Outro reclama da temperatura. Com tanta gente na sala a temperatura subiu naturalmente. O ar condicionado já não tem a mesma eficiência; uma hora esfria demais, outra hora esquenta. Uns tremem de frio outros reclamam do calor. Alguém atira papel no chão, que vai parar embaixo da cadeira do vizinho. Você se dá conta de que a sala está imunda e pensa: isso aqui já foi melhor.

 Percebendo, então, que a situação começa a fugir do controle, os alunos propõem regras entre eles. Não joguem papel no chão, mantenham as portas e janelas fechadas para melhor rendimento do ar condicionado, bebam um copo de água apenas em cada intervalo para que não falte aos últimos da fila.  Façam fila para o sanitário, não desperdicem o açúcar do café (use preferencialmente o adoçante). Não coloquem bolsas no chão, apaguem a luz do corredor, evitem falar todos ao mesmo tempo, não fumem na sala ou nas imediações dela.

Acontece, no entanto, que a turma é grande e tem certos vícios. Até hoje frequentaram o curso sem regras, fica difícil abandonar os costumes pessoais para dar a vez à ordem estabelecida. Se nunca foi assim, de agora em diante não tem outro jeito, o coletivo virá antes do individual. A sala é pequena demais para conflitos de interesses. A solução é ensinar essas regras a cada um dos novos alunos que se matriculam. Assim, eles já entram sabendo como é o ambiente onde vieram estudar. Pois bem, em resumo o que se quer dizer é o seguinte: Ensinem regras de convivência (que serão regras de sobrevivência) às crianças. Elas terão muito mais facilidade de assimilar a nova ordem geral do que nós, que já cultivamos nossos vícios e nossas teimosias.   

Os riscos de uma população de nove bilhões no Planeta Terra são enormes. Há pouca chance de sobrevivência se tudo continuar como é hoje. Digam isso aos pequeninos que estão vindo atrás de nós.

 Angelo Humberto Anccilotto (10/06/2011)