PASSAREDO

Não é bom acordar ouvindo música clássica. Um concerto de piano, por exemplo, relaxa a mente e não deixa a gente pensar nas coisas que precisam ser pensadas. Música clássica é para a tardinha ou para o fim da noite. De manhã, o aconselhável é um rock metálico, que põe os neurônios em circulação. Então o joão-de-barro, que talvez saiba disso, toda manhã, de passagem pelo meu quintal, executa um solo de guitarra bem próximo à janela da cozinha. Quem conhece um joão-de-barro sabe do que eu estou falando. Ele vem andando como quem não quer nada e de repente estufa o peito e solta aquele quiquiquiquiquiqui, parecendo mesmo o guitarrista de uma banda que se exibe para a platéia no fim do show. Às vezes vem outro, estufa o peito e entra no mesmo tom: quiquiquiquiquiqui. Sob um solo ou um dueto heavy metal de guitarras joãodebarrianas começam todos os meus dias.

Depois vêm os sanhaços. Quer dizer, vinham. É tempo de goiabas e não tenho goiabeiras em casa.  Então os sanhaços andam pela vizinhança. Os quintais dos vizinhos andam amarelinhos de goiabas. E agora, azulzinhos de sanhaços. Não dá para competir.   Desisti; estou dando um tempo. Lá para junho, quando o inverno apertar e as goiabeiras perderem as frutas e as folhas eles retornarão ao meu humilde mamão formosa que sirvo todos os dias. 

Os canarinhos. Esses são uma alegria a parte. São canários da terra, de peito bem amarelo, não cantam como os canários belgas ou canários do reino. Nem cantam como o canarinho que o vizinho tem na gaiola. Passo horas pensando nessa injustiça, sem compreender. Meus canarinhos são alimentados livremente no quintal. Comem a hora que querem, pousam onde quiserem, ficam o tempo que desejarem, e o cardápio, além de alpiste, tem vitaminas especiais. E eles não cantam nada. O canário do vizinho, numa gaiola de 20 por 50 centímetros, se tanto, canta o dia inteiro. Certo dia tomei a decisão de pintar o muro. Era cinza e transformei-o em branco, o mais branco dos bancos que os fabricantes de tintas conseguem produzir. Como efeito colateral, os canarinhos sobre o muro do meu quintal ficaram bem mais amarelos.

Os pardais são como as sentinelas do quartel que tocam as cornetas na alvorada para despertar a tropa, isto é, quando me vêem com a lata de farelo na mão, desandam a piar informando que o café da manhã está sendo servido. Diante do piar insistente, começa a descer pássaro das árvores que não acaba mais. Bastante altruísta essa atitude passeriforme.   

Chegam as rolinhas. E como comem! Entram na casinha e abrem as asas, expulsam os canarinhos e os pardais. Depois saltam no chão e passam o resto do dia beliscando migalhas. Estão sempre aos pares, são muito namoradeiras.  Assustam-se com alguma coisa, com algum barulho de dentro de casa e voam para a cordinha do varal. A corda balança, bico para baixo, rabo para cima, bico para cima, rabo para baixo, como numa gangorra com força de atrito descompensada. Se chego à janela bebendo alguma coisa, somos, naquela hora em que a tarde vem caindo como um viaduto, a mais perfeita tradução do bêbado e a equilibrista.

Mas canta um bem-te-vi. Um bem-te-vi jovem, que abrevia o canto: vi, te vi... Delata tudo o que vê pela frente, principalmente o gato escondido debaixo da moita de capim cidreira. Como um instrutor de fanfarra ele dá um apito e o terreiro emudece. Perigo!  Observo o gato em posição de ataque. Não interfiro. Como diz o Almir Sater: “a Natureza é isso, sem medo, nem dó, nem drama”. Mas os pássaros estão protegidos em galhos altos, o gato desiste a caçada e vem pra dentro procurar ração. O bem-te-vi delator vai embora, vem outro, pelo jeito mais velho, fica meio isolado, dá uma bicada no mamão e permanece imóvel naquela pose de sheique árabe vestido na sua túnica marrom escura, colete amarelo  e  turbante branco em volta da testa. A passarada em volta faz uma algazarra danada, e eu comparo essa cena a um bando animado de rapazes e moças que chegassem  ao bar e pedissem duas ou três cervejas e brindassem entre vozes e risos. Lá no fundo do bar está o bem-te-vi silencioso e compenetrado como um velho melancólico. Os rapazes levantam  o copo e lhe oferecem cerveja. Ele agradece meio resmungando e sussurra: só bebo conhaque.

Meu quintal é um mini aeroporto. Nas horas de rush aéreo, entre seis e oito da manhã e quatro e seis da tarde chego a contar um pouso e uma decolagem a cada dois segundos. Voa um canarinho, chega um pardal, voa uma rolinha, chega um bem-te-vi, voa um sanhaço e chega um pássaro-preto. Esses são muitos. A primeira vez, vieram em 40 ou 50. Tirei foto, postei no grupo do whatsapp. Fiquei imaginando a sinfonia que seria aquilo quando resolvessem cantar. Eles começaram a vir em menor número, mesmo assim são bastante: 15 ou 20. Mas nunca cantaram. Desconfiei. Certo dia fui no meio deles e comecei a assobiar imitando um pássaro-preto. Eles me olharam com certa indiferença como seu falasse um idioma estrangeiro. Não tive mais dúvidas, são chupins.

Angelo Humberto   Anccilotto (mar/2018 )