ALTA VELOCIDADE

 

Faça o teste. Assista a um filme dos anos 50. Tanto faz ser uma daquelas comédias românticas, com a Audrey Hepburn e George Peppard ou da Ava Gardner com Clark Gable, ou um suspense de Hitchcock. Em seguida, assista uma produção dos nossos dias. Também não importa se seja drama ou aventura. A sensação que você vai ter após um filme dos anos 50 é que esteve sentado uma hora e meia na frente de um lago manso. De vez em quando atirou um pedra na água para vê-la ir ao fundo, viu um peixe pulando aqui e outro lá, um cisne passeando na borda e um passarinho de penas muito coloridas pulando nos galhos do arvoredo em redor. Vá lá que no filme de suspense você possa ter tido um sobressalto como quem vê um jacaré perseguindo um marreco ferido dentro da água. Mas isso não chega a lhe tirar o sono.

 

Já os filmes de agora fazem você se sentir como quem tivesse que correr de um leão montanha abaixo. Você dispara, pensa que ganhou distância, olha para trás e o leão está cada vez mais perto. O jeito é aumentar a velocidade e correr até encontrar abrigo, isto é, até que o filme acabe. No fim da trama, dá vontade de tomar um suco de maracujá. Nos filmes dos anos 50, quando surge o The End na tela, o desejo que vem à cabeça é buscar uma taça de vinho e pensar na vida.

 

Não pense que estou me referindo à qualidade dos filmes. Não passa pela minha cabeça fazer comparações sobre qual época produzia filmes melhores, nem se as atrizes eram mais elegantes antigamente, embora, no cinema como na vida, a elegância anda em baixa. Convenhamos que uma mulher de tailleur e lenço em volta do pescoço, jantando num restaurante com uma rosa sobre a mesa e uma taça de champanhe ao lado é bem mais agradavelmente impactante para os nossos olhos que uma moça  vestida em jeans desfiado e furado bebendo cerveja em pé no balcão.

 

Mas, ainda não é esse o ponto da questão. O que eu pretendo dizer, e não sei se vou conseguir, é que a hora e meia dos filmes de antigamente produzia menos cenas e menos diálogos que a hora e meia dos filmes de agora. Os filmes de antes eram cadenciados, ritmados, era possível ver na fala dos artistas as vírgulas e os pontos finais. Nos filmes de antigamente a gente tinha tempo para respirar no meio das falas.  SE fosse para fazer uma ilustração eu diria que os diálogos daqueles filmes eram como a divulgação das notas do desfile de carnaval transmitida pelo locutor da liga das escolas de samba: I-M-P-E-R-A-T-R-I-Z    L-E-O-P-O-L-D-I-N-E-N-S-E--- N-O-T-A:  N-O-V-E --- V-Í-R-G-U-LA--- O-I-T-O. Já os filmes de hoje se parecem mais com um ataque perigoso da seleção brasileira narrado pelo Galvão Bueno.    

 

Se o filme fosse de espionagem ou de perseguição, bastava o perseguido parar numa esquina e abrir um jornal na frente do rosto que o perseguidor passava sem desconfiar. Nos tempos atuais, os perseguidos correm por becos sem saídas, saltam obstáculos, escalam muros, sobem nos telhados, pulam lá de cima, atravessam avenidas de tráfego intenso e por fim desembocam nos subúrbios onde está passando um trem rapidamente alcançado pelo fugitivo que sobe bordo num salto espetacular sobre os estribos. 

 

E não é só no cinema. As músicas de hoje são cantadas com certa revolta na voz e o cantor muda de tom umas trezentas vezes na mesma estrofe.  Coloque Nelson Gonçalves cantando “A Volta do Boêmio” na vitrola. É possível levar o copo à boca duas ou três vezes em cada verso. Mas experimente fazer a mesma coisa numa canção de Bruno e Marrone. No futebol não é diferente. Quando um jogador é substituído no segundo tempo vem logo a informação do repórter: “Correu 11 quilômetros”.  Se somarmos as distâncias percorridas por cada um dos 22 jogadores, vamos chegar à conclusão de que os atletas  correram muito mais que a bola, o que, para o jogo, é uma bobagem tão grande como um  motorista que economizou R$ 6,00 para encher o tanque do automóvel, num posto de gasolina que fica a 20 quilômetros da sua casa. Vinte na ida e vinte na volta são 40 quilômetros percorridos, o que perfaz mais ou menos o consumo adicional de 4 litros de combustível.  Ao preço de quatro reais o litro, ele gastou dezesseis reais para economizar seis.

 

A ênfase em ter pressa para fazer coisas seria ainda melhor observada num jovem casal de namorados. Os namorados conseguem chegar a uma festa abraçados, brigar, terminar o namoro, chorar o término do namoro, curtir a fossa necessária pelo fim do namoro, dar um tempo, arrumar outra pessoa para namorar, beijar a nova pessoa que encontrou, dançar com ela o resto da noite. Isso sempre foi assim, namorados sempre fizeram isso. A diferença é que a cinqüenta anos atrás isso acontecia no intervalo de um ano. Hoje eles conseguem fazer tudo isso numa única noite.    

 

É nessa alta velocidade que vivemos hoje, num mundo sem ritmo e sem cadência, demasiadamente falado nos filmes, exageradamente gritado nas canções, desnecessariamente extenso na literatura, superlativamente corrido no futebol e muito voluntarioso no amor.  Se eu tivesse que dar um conselho a alguém eu não seria como esses coachs modernos que gastam 40 horas explicando como você deve se comportar social e profissionalmente. Eu seria como um técnico de futebol antigo, que vendo o seu jogador descambar na correria pelo campo, levantaria do banco e movimentando as palmas da mão para baixo, diria: “Calma, toca a bola!” E isso vale para todo o resto: “Calma!” – eu diria a quem me pedisse uma opinião. E depois de respirar por sete segundos completaria: “Toca a vida!”     

 

Angelo Humberto Anccilotto (mar/2018)