O TRABALHADOR BRAÇAL

O mar era calmo, a água azul, o sol quente e tinha pouca gente na areia. Eu merecia estar ali. A semana não tinha sido lá muito agradável, então a praia do sábado, antes do almoço, reequilibrava tudo. O mar é para as nossas almas um mistério de fúria e liberdade, força, imensidão e paz e para os nossos corpos um conjunto de ondas e espumas, brisa e calor. À medida que as horas avançavam e a temperatura subia, os banhistas iam recuando, deixando a água e se abrigando debaixo dos guarda-sóis multicoloridos.

Então, como brincar na água se tornasse uma aventura um tanto escaldante, sentar na sombra e pedir uma cerveja ao homem do carrinho que ia passando se tornara uma alternativa pra lá de interessante. E assim, confortável e refeito das preocupações da vida, me divertia com algumas crianças que ainda permaneciam na água, com os pais que tentavam remove-las de lá, e com os malucos que passavam correndo, disfarçados de atletas, com a barriga dobrada sobre o elástico do calção.

O que eu vou relatar daqui pra frente nesta crônica, vai fazer vocês pensarem que voltei a escrever só para contar mentiras. Não tem problema, a glória de um escritor é levar o leitor ao limiar da ficção onde o real e o imaginário se confundem e, se de um lado tudo é falso, do outro tudo é verdadeiro. Mas juro que esta historia é verdadeira. Com o mar inteiro à disposição para ser admirado, meus olhos acabaram se entretendo ali perto mesmo, a cerca de quatro metros de distância, onde alguém trabalhava sob o sol do meio-dia cavando um túnel, ou uma toca, ou simplesmente a versão irracional da minha casa, minha vida.

Eu disse irracional? Talvez para efeito de catálogos e de estudos humanos a atitude daquele trabalhador fosse mesmo irracional, mas para mim que o observava a partir da sombra do meu guará-sol, com uma cerveja gelada na mão, a obra que ele construía era fruto de uma inteligência alem dos códigos convencionais, acompanhada de beleza e graça. Mas o trabalhador solitário não estava para brincadeira, entrava no túnel e voltava de lá carregando um punhado de areia.

Nós, os humanos, dispomos de uma gama bastante variada de instrumentos mecânicos, hidráulicos ou eletrônicos para as nossas grandes construções. Lançamos a colher de uma retroescavadeira no chão e abrimos buracos, rodopiamos seu controle pneumático e recolhemos a terra em sua concha frontal. Abrimos túneis, valetas, demolimos alvenarias desse modo. Já não usamos nossas mãos para o serviço pesado.  

Mas um siri, esses siris da areia do mar que parecem brinquedos de plástico fabricados na China, não dispõem de instrumento algum. São dotados de três ou quatro patinhas de cada lado do corpo e assim, esse pobre animal “irracional” cavaca sua toca com as próprias “unhas” Subia o barranco apoiado as duas patas dianteiras, carregando um punhado de areia entre as outras quatro. Jogava a areia um pouco longe da boca do buraco e depois “sapateava” sobre ela, compactando-a. Era ele mesmo a própria retroescavadeira animal. Fez isso durante muito tempo. Afundava-se no túnel e subia cada vez mais cansado. Teve uma hora que ele parou olhando para mim debaixo do guarda-sol e tive a nítida impressão que ele passou uma das patas na testa como se enxugasse o suor. Percebi naqueles pequenos olhinhos negros arregalados uma ponta de inveja da vida que levo.

Era um trabalhador antigo, fazendo tudo com as próprias mãos, como já fomos todos nós um dia. Debaixo do guarda-sol,confortável, uma espécie de emoção me subiu à garganta e eu me lembrei dos versos de Manoel Bandeira, num almoço no Jóquei do Rio de Janeiro: "Os cavalinhos correndo / E nós, cavalões, comendo".

Angelo Humberto Anccilotto (Fev/2018)