GUARAÇAI

 

Amar-te-ei,  assim, e sempre, enquanto pequenina fores

Oh cidade dos meus tempos idos.

Guaraçai, presépio alcatifado de flores,

Berço dos meus sonhos já dormidos.

 

Não sonha para ti o progresso fútil

Nem inveja a sorte das metrópoles imponentes,

Pois elas se definham numa luta vã, inútil,

Contra os monstros que geram e alimentam em seus ventres.

 

Não te envergonhes da estrada de terra batida,

Nem da carroça preguiçosa que por ela passa.

Não sabes que um gole de poeira é mais saudável  à vida,

Do que um trago de monóxido servido com fumaça?

 

Teus pais de família quando voltam da lida, não sofrem nas lotações, comprimidos...

Tuas crianças correm livres pelas ruas, se juntam nos quintais, se espalham...

Tuas meninas não padecem o horror das taras e dos desejos pervertidos

E teus velhinhos, se não quiserem, não precisam morrer; não atrapalham.

 

À noite, tua Polícia apenas faz vigília,

No hospital, teus enfermos repousam em sono tranquilo,

A lua cheia te clareia, um cordão de estrelas brilha,

O carrilhão da Matriz conta o tempo e todos podem ouvi-lo.

 

Mas se desejas crescer para orgulhar-te do tamanho

Breve teu sonho verterá em pesadelo,

Acalentarás em teus braços filhos de outras terras, povo estranho,

Que certamente não terá por ti o mesmo zelo.

 

Nos teus Natais e em teus Aniversários

Vazia e abandonada vai chorar teu pranto

Vendo aqueles que acolheste buscando itinerários,

Felizes, para se regalarem noutro canto.

 

Sê sempre assim, rejeita o mais fútil progresso,

Despreza o aço e o concreto que a tua alma endurece.

Em cismar sozinho à noite a Deus eu peço.

Sê sempre assim, não cresce!

 

(Angelo Humberto Anccilotto – Nov/1978)