SISTEMAS E PESSOAS

Você deposita duzentos reais na sua conta corrente e no dia seguinte constata que o dinheiro não está lá. Vai reclamar ao gerente e ele lhe dirá que houve falha no sistema, mas que fique sossegado porque já estão regularizando. Você passa uma noite inteira sem luz elétrica em casa e no dia seguinte descobre que toda sua região sofreu da mesma pane. As autoridades dirão na televisão que houve uma falha no sistema de transmissão de energia, mas que já foi consertado. Você está assistindo a uma partida de futebol ao vivo na televisão e de repente a imagem desaparece. O “speaker” informa que houve uma falha no sistema e a antena da emissora perdeu contato com o satélite, mas logo o sinal será restabelecido.  Se eu chegar ao meio desta crônica sem salvá-la e de repente o Windows travar e eu precisar reiniciar o computador, terei perdido meu texto, o que será atribuído a uma falha do sistema. Como se vê, o mundo funciona por sistemas e como se vê também, sistemas falham. E muito.

Os casos acima citados podem ser classificados como sistemas operacionais e quase não existe mão de obra humana envolvida no processo. Se há, ela estaria alocada em outra etapa, em outro processo, como na manutenção e verificação dos equipamentos que fazem o sistema funcionar.  Mesmo assim, é comum encontrar as seguintes explicações para as falhas de sistema:  “faltou manutenção”, “houve sobrecarga”, “o equipamento estava desgastado”, “faltou investimento”. Ou seja, ainda que o homem participe muito pouco dos sistemas operacionais, em última instância ele é o responsável pelas suas anomalias.

Imagine agora sistemas muito mais amplos funcionando basicamente por meio de pessoas. Sistemas Econômicos, Sistemas Políticos, Sistemas Judiciários, Sistemas de Segurança, Sistemas de Governo. Os sistemas operacionais são binários: abrem ou fecham, acendem ou apagam, passam ou não passam, ligam ou desligam.  Um sistema operacional jamais terá um milésimo de segundo para pensar: “e agora, ligo ou desligo?” “Acendo ou apago?” Um sistema operacional não marcará reunião entre os cabos e equipamentos que o compõe para decidir qual a melhor solução: “fechamos ou abrimos?”,  “deixamos passar ou retemos?”  Sistemas operacionais não entram em dúvida, ou é ou não é, ou acontece ou não acontece, não existe o talvez. Tudo é imediato, não tem o “amanhã a gente discute isso.” Já os sistemas citados no alto deste parágrafo são abstrações e dependem do dedo, da mente e principalmente da consciência do homem para funcionar. 

Um sistema de segurança de uma agência bancária é composto por uma porta detectora de metais, alarmes, cofres e por alguns guardas, armados ou não, dentro do ambiente. A velhinha de 80 anos se aproxima da porta para acessar a agência e a porta trava. Cabe ao guarda cumprir o ritual de investigar o que aconteceu e liberar ou não a porta. Mas uma velhinha que tem 80 anos, que perigo pode representar para o banco? – pensa o guarda. E olha a pobre senhora com compaixão. O sistema de segurança da agência nesta hora está a mercê do raciocínio e da piedade do guarda. Ele libera a porta, a senhora entra andando devagarinho com a alça da bolsa enrolada no braço. Lá dentro ela procura dois rapazes e lhes entrega uma arma para cada um; o banco é assaltado. O sistema de segurança não funcionou, uma pessoa raciocinou errado e se deixou comover pelos sentimentos; houve falha humana.

O Ministério da Agricultura tem um sistema de inspeção de produtos alimentícios.  Contrata fiscais treinados para a função, atribui-lhes poder para, em nome do governo, aprovar ou reprovar o produto inspecionado. Mas há muito laudos a preencher, há uma infinidade de detalhes a conferir, uma hora o fiscal acha que o produto é bom, outra hora parece que não é. O fabricante do produto se irrita com a demora, oferece-lhe algo em troca para terminar logo o trabalho e o fiscal acaba batendo o carimbo de aprovado. O sistema de vigilância sanitária não funcionou por que a pessoa responsável por operá-lo vacilou entre uma decisão e outra e, como a carne é fraca, acabou se seduzindo por uns reais oferecidos.

Um assassino esconde o corpo da vítima e depois de tanta investigação e ponderação, o homicida é condenado a 23 anos de prisão. Mas o Sistema Judiciário é composto de instâncias que se sobrepõem como camadas. As instâncias de cima podem mais que as instâncias de baixo. Então um condenado na instância inferior tem o direito de pedir recurso à instância imediatamente acima. A instância acima se enrola toda e protela ao máximo o julgamento do recurso, por que tem dúvida sobre a condenação uma vez que o corpo não foi encontrado. Cansado da demora do julgamento o advogado do réu pede recurso no poder mais alto. O poder mais alto conclui que a instância abaixo não cumpriu seu papel de fazer o julgamento dentro do prazo razoável e manda soltar o criminoso. Nessa sucessão de raciocínios, interpretações e ponderações, há um assassino solto, comprovando que o sistema judiciário falhou.

Não esperem funcionamento perfeito dos sistemas operacionais. Tem sempre um técnico que em algum momento da sua jornada de trabalho deixa de limpar um conector, trocar um chip, apertar uma anilha, ou um piloto mentiroso que faz um plano de voo falso e não abastece a aeronave. Esperem menos ainda dos sistemas onde os chips, os conectores e o combustível são as próprias pessoas, sujeitas a raciocínios (nem sempre lógicos), a pistas falsas, a emoções, a dúvidas, a conclusões precipitadas  ou – o que tem sido a nossa grande desgraça -  a tentações da carne que subvertem qualquer sistema em troca de um punhado de dólares  ou de reais.  

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2017)