QUANTO CUSTA A SUA PALAVRA?

Dia desses calhou de eu estar rodando os canais da televisão e dar de cara com o Chaves. Não o Hugo, mas aquele outro, mais divertido, que o Silvio Santo mantém no ar há trinta anos. Nesse episódio o inocente menino do cortiço dá uma vassourada nas costas do cobrador de aluguel, o Sr. Barriga e diz que o salvara da picada de um inserto venenoso. Indignado, o Sr. Barriga vira-se para o Chaves e pergunta: Quer dizer então que  agora eu  lhe devo a minha vida? E Chaves, sem quererquerendo, confirma: Sim. Vinte centavos, pode me pagar.

A avaliação de preço de um bem inestimável como a vida só é possível numa cena cômica. Dizer que a vida de alguém vale vinte centavos provoca riso, da mesma forma que nos provoca indignação receber a apólice de seguro estipulando em R$ 50 mil a nossa indenização de morte. Mas, conjecturas a parte,  hoje tudo está a venda. Todo mundo vende o que tem, e principalmente o que não tem. Recebi ainda esta semana uma mensagem no celular como o seguinte teor: “Aquele que crê em mim nunca estará sozinho. Receba as lindas passagens da Bíblia! Responda SIM, assine e ganhe a primeira assinatura. Após, R$ 0,35 por dia!

É provável que muita gente tenha recebido a mesma mensagem, e provavelmente também, muitos tenham se perturbado diante da perspectiva de recusar a palavra da Bíblia. Há nesse mundo grande carência de palavras de consolo. E ante a possiblidade de tê-la ao custo de trinta e cinco centavos, muitas almas atormentadas pagaram  o preço por um breve conforto.

Não eu.  Olho com desprezo a mensagem recebida. Não é que não precise de consolo. Estou sujeito às mesmas angústias de todo ser humano. Não que uma mensagem da Bíblia que caísse no visor de aparelho telefônico às 10 horas da manhã ou às 3 da tarde não pudesse arrefecer um pouco o inferno de uma sala de trabalho, mas pagar trinta e cinco centavos a cada mensagem recebida?  

Durante 30 dias a soma iria a R$ 10,50. Não creio que alguém não possa dispor dessa quantia para contratar o serviço oferecido. É só economizar duas cervejas por mês. Mas mesmo assim continuo desprezando o convite. A palavra da Bíblia é uma dessas coisas de valor inestimável. Trinta e cinco centavos não é nem caro nem barato porque não faz sentido um espertalhão retirar trechos da Sagrada Escritura para vendê-los como futilidades inconsequentes que se negociam nas esquinas.

No fundo o que desprezo não é a mensagem mas o ato comercial que ela representa. Alguém se julga no direito de criar um programa de computador que retalha o evangelho em pequenos versículos e os distribui para milhares de números de telefone armazenados na memória, sob a forma de auto-ajuda remunerada. Que esse inventor do programa vá vender banana na feira se quiser ganhar dinheiro. Os versículos da Bíblia não tem preço. E ainda por cima, a companhia telefônica arrecada todo produto da venda sem constrangimento de não reservar uma parcela para pagamento dos direitos autorais. Pode ser que um dia Deus envie um oficial de justiça à Terra para cobrar o que lhe é devido.

 Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2012)