NUNCA É TARDE

Esta semana, numa cidade próxima, houve assalto a caixas eletrônicos de dois bancos. Vi na televisão.

Não é nada demais um assalto ao caixa eletrônico. Quase todo dia tem um. A notícia já não nos surpreende, assim como não nos surpreendem as notícias de tantos outros crimes pelo Brasil afora. Habituamo-nos com divulgação dos crimes de toda espécie sem sofrer por isso. A notícia atravessa nossos ouvidos como o bisturi atravessa um corpo anestesiado; não temos mais músculos para sentir a dor. Ficou tudo tão natural e tão cotidiano como tomar café e escovar os dentes, e sequer  daria assunto para um crônica, não fosse pelo fato de que um dos assaltantes tinha 64 anos de idade.

Cresci e vivi até hoje pressupondo que o crime era prerrogativa dos jovens. Pela audácia, pelo vigor físico, pelo conflito íntimo, pela própria falta de dinheiro no bolso, pelos vícios, por inúmeras outras razões, o jovem se atira no caminho errado. O homem maduro tem outros desafios, tem outras esperanças, tem outras razões de viver.   Mas essa notícia me entristece. Não é possível que um homem de 64 anos tenha militado na vida bandida desde a mais tenra juventude. Certamente teria sido apanhado antes em algum flagrante criminoso, estaria preso, quiçá morto, quiçá tivesse deixado voluntariamente as delinqüências por descobrir por si mesmo que o crime não compensa.

Com 64 anos de idade, esse homem, quer mude quer não a lei previdenciária, deveria estar juntando documentos para a sua aposentadoria. Deveria estar arrumando as tralhas de pesca, juntando dinheiro para adquirir um titulo de clube de campo. Mas não; resolveu seguir um bando que lhe prometera fortuna ilícita, pondo em risco os últimos 20 anos que lhe restam na vida. Depois de suportar todas as tentações da juventude e todas as agruras da idade adulta, quando pôs os pés na terceira idade, desprezou toda sua história de vida, pegou uma arma,  juntou dinamites e foi para o banco, de madrugada, explodir caixa eletrônico. 

Que tempo é este em que vivemos, quando um homem de 64 anos, que deveria dormir o merecido sono dos justos, sai pelas ruas de madrugada a perturbar o sono dos outros?  De onde vem essa tardia vocação para o crime? Virá dessa exagerada inquietação social que estimula as pessoas a ultrapassarem todos os limites, inclusive o da idade? Virá dessa crescente decadência moral que  nos empurra num jogo de vale-tudo, onde  os fins justificam os meios?  Ou virá da catadupa de crimes de colarinho branco que enriquece os homens da cúpula do país  e faz o homem comum sonhar com as mesmas regalias?  Ou, quem sabe, não seria o portfólio de garantias oferecido ao criminoso eventualmente apanhado na fuga?

Em São Paulo, andei por ruas escuras no meu tempo de estudante. Saltava do ônibus e caminhava meio quilômetro até em casa. Jovens na rua me causavam má impressão, uma sensação de perigo iminente. Velhos, ao contrário me tranqüilizavam. Eu tinha por convicção que um homem de mais de 60 anos jamais apontaria uma arma para quem quer que fosse. Caminhando na rua escura, éramos como cúmplices disfarçando nossos medos e nossas cismas. Sua proximidade era uma espécie de conforto, um certo encorajamento. 

Mas me vem essa notícia que um homem de 64 anos assaltou um banco. Perdi a confiança nos velhos. Se antes não podia confiar minha segurança aos jovens agora também não posso confiá-la aos homens de cabelos brancos. É triste saber que num país onde o crime vem começando cada vez mais cedo, agora também está acabando cada vez mais tarde.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2017)