DELAÇÃO PREMIADA

Passamos recentemente pelo dia de Tiradentes. O dia de Tiradentes nos põe na memória três coisas: a primeira é o próprio alferes, sua imagem de cabelos e barbas longas que estamos acostumados a ver em todos os retratos que já fizeram dele neste país;  a segunda coisa é a liberdade, o sonho de uma Pátria livre não mais subjugada pela Coroa portuguesa; e a terceira é a delação de Joaquim Silvério dos Reis.

Aliás, pensando bem, e me veio em boa hora essa lembrança, passamos também recentemente pela Páscoa ocasião em que, antes de comemorar a ressureição de Cristo, submetemo-nos aos ritos de sua paixão e morte. E entre as passagens da Semana Santa também está lá a delação de Judas.  Portanto, nas duas semanas antecedentes, estivemos em contato memorial com as duas das maiores delações da História.

Mas quase nem as percebemos, pois estamos envolvidos, do ponto de vista dos espectadores, com a delação em tempo real que se processa em nosso país, com o desmembramento da Operação Lava Jato.  Delação é traição. E muitos dirão que nos dois primeiros casos sim, visto que tratam de dedurar pessoas inocentes ou defensores de causas justas. Tanto na paixão de Cristo, como no martírio de Tiradentes, os delatores estavam a serviço dos inimigos. O bem estava sendo entregue para satisfazer a saga do mal. No caso da operação Lava Jato é o contrário, os delatores estão do lado do bem, colaborando com a Justiça, mas isso não deixa de ser traição. O pacto de silêncio - ou de morte - do sindicato dos ladrões que vinha mantendo acobertadas as entranhas da corrupção brasileira foi brutalmente quebrado.

Existem várias formas de delação. No caso de Judas, o delator de Jesus, trata-se de alguém que indica quem é pessoa que deve ser presa e julgada. Judas não tem a mínima noção do que Jesus será acusado, sabe apenas que foi procurado e corrompido para identificar um homem entre os transeuntes do Jardim Getsêmani. Um beijo, ato comum na região da Judeia, que indicava amizade entre as pessoas que se saudavam, foi a senha para a ação dos soldados romanos.  No caso de Tiradentes, o delator Silvério dos Reis procurou as autoridades  portuguesas para confessar que o Alferes e um grupo de amigos tinham planos de prender os cobradores de impostos. A denúncia colocou a Cote em ação; a  Inconfidência estava lavrada.

E, por fim, o caso das delações Lava Jato vai detalhando o modus operandi do esquema de corrupção que por décadas saqueava o Brasil, e à media que os procedimentos vão sendo revelados novas personalidades políticas vão sendo incluídas na lista de suspeitos que a Policia Federal e o Ministério Público investigam.

O que difere essa delação os casos anteriores é que na Paixão de Cristo, Judas, pelo menos até onde se sabe, não estava correndo risco. Sua delação foi espontânea e articulada com uma recompensa não relacionada ao processo de prisão de Jesus. No caso de Tiradentes, alguém que sabia o que iria ser feito, teve a iniciativa de se antecipar aos fatos, e em busca de algum privilégio particular ajudou a impedir que o levante se concretizasse.

Mas as delações da Lava Jato são um caso sui generis. Os delatores estão cuspindo no prato em que comeram, porque são coautores e réus dos crimes que estão ajudando a punir.  Com facilidade e desembaraço confessam na frente das autoridades suas participações no processo. Contam como entregaram $ 5 milhões a fulano, R$ 4 para beltrano, R$ 13 para sicrano; com ar de inocentes revelam como depositaram $ 90 milhões na Suíça, como despistaram dinheiro que pagaram campanhas eleitorais deste ou daquele candidato e admitem que superfaturaram obras para manter a fonte de recursos que iria comprar prefeitos, governadores, ministros, senadores e presidentes da república. É como se o crime não fosse deles também, que a culpa é essencialmente dos outros. Quando, displicentemente, se colocam na posição ilicituosa, o fazem como um pedido de clemência para o abrandamento de suas penas.

Abrandamento que certamente virá, afinal eles estão praticando delação premiada, expressão que não passa de redundância. Delatores sempre ganham prêmio para vender os amigos.

Angelo Humberto Anccilotto ( Abr/2017)