A NOSSA BALEIA

Baleias são animais livres, entre os mamíferos não há quem iguale suas façanhas. Dominam os mares, chegam a nadar vinte e cinco mil quilômetros por ano, procuram águas mais frias para se alimentarem, voltam para águas mornas para se reproduzirem. Ninguém é dono de uma baleia, nem mesmo o mar. Talvez o Sea World da Disney, em Orlando, possa chamar de suas as baleias que exibe ao público, talvez algum aquário no Japão ou em Dubai possa também ter registro de posse de alguma delas, mas isso é exceção, é quase aberração.

Aqui em Barra Velha, tivemos a nossa baleia. Perdão, temos a nossa baleia. Ela morreu, é certo, ficou encalhada por vinte e quatro horas na areia, no mês passado, foi devolvida às águas, retornou, morreu. Estava doente, não havia muito o que ser feito. O que fizemos foi adotá-la. Não, não a registramos no cartório de títulos como propriedade do município, nem expedimos oficio à Policia Ambiental reivindicando sua tutela, e a prefeitura não arranjou uma coleira para, na hora de devolve-la ao mar, naquele momento de súbita tensão e esperança  de vida,  envolver-lhe o pescoço com um comunicado: “Pertence a Barra Velha”. Fomos descuidados, não tomamos nenhuma dessas previdências. Mas tratamos de desencalhá-la. Juntamos forças de especialistas e de gente aleatória, de máquinas e de braços, e puxamos, empurramos, rodopiamos e - por que não confessar? – rezamos para ela ir embora.

E vibramos, até choramos de alegria, quando, enfim, ela aparentemente com forças, agitou as nadadeiras e deu braçadas no mar. Acompanhamos seu desaparecimento na água com a mesma tristeza e a mesma alegria de quem acena na despedida  a um amigo ou a um parente de longe que veio nos visitar. Vi gente com os olhos vermelhos, retornando cabisbaixa para o asfalto; não era tristeza, era saudade.

Mas quis o destino que o enorme animal, do alto de suas quase 10 toneladas, não recobrasse totalmente as forças para seguir viagem. Entre desafiar o mar e voltar para o aconchego da praia e da gente carinhosa que a acolhera ela preferiu esta última alternativa. Voltou, não teve tempo sequer de se despedir dos amigos. No dia seguinte comentava-se pela cidade: a baleia morreu. E eu cheguei em casa e comentei despercebidamente: a nossa baleia morreu.  Inconscientemente eu, e creio que toda a cidade, já a estimávamos como se estima ao nosso cachorro, ao gato ou ao nosso canarinho. 

Ouvi dizer que sua carcaça será preservada e exposta no museu da UNIVALI. Não tenho certeza se será, mas imagino toda sua arcada óssea conservada atrás de um vidro para visitação pública. E ouço até os visitantes comentando de passagem: “Esta é a baleia de Barra Velha?” O que a tornará mais nossa ainda.  

 

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2017)