INTELIGÊNCIA BINÁRIA

Direis que o computador acelerou o mundo eu vos digo que o computador o paralisou.

Nos dias de hoje todos os gênios do planeta estão ocupados criando programas de computador. Na outra ponta faltam gênios para descobrir a penicilina, para inventar o avião, para construir a torre Eiffel, para escrever Dom Quixote, para pintar Guernica ou para marcar mil gols. 

Os gênios de hoje foram todos recrutados para o serviço cibernético e espalharam programas de computador por tudo que é canto. Tudo o que vamos fazer há que se buscar o auxílio de um programa que faça os cálculos, que aponte a melhor combinação. Todo trabalho do homem hoje em dia se resume a um simples pensamento ou uma ideia, e o computador executa o resto. Nem o trabalho de perguntar o endereço o motorista de hoje tem, pois que os navegadores de bordo do automóvel vão sinalizando o percurso no painel.

Venho de um tempo em que aos oito anos de idade já cortávamos graveto para o fogão, aos dez, metíamos a cunha na fenda de um tronco de madeira e batíamos a marreta em cima para fazer lenha. Não denuncieis meus pais ao conselho tutelar porque, além de sobreviver, hoje sei as fraquezas e a fortaleza da madeira. Conheço a sequência de suas fibras, sei onde é mais fácil parti-la e onde é inútil bater o machado. Venho de um tempo em que se aprendia fazendo e aprendendo o feito, fazia-se o aprendido, retroalimentando a cadeia pensar-fazer.

O jovem de hoje, se tivesse que rachar lenha, baixaria um aplicativo no celular e, por meio de alguma cibermagia, a lenha apareceria na porta cozinha. O lenhador, valente e orgulhoso, teve apenas o trabalho de pensar que era hora de cortar lenha.  E assim como a luz se fez a um “clik” do Criador no início dos tempos, a lenha rachou-se a um comando do computador.

Exagerei no exemplo, mas a realidade nos mostra coisas bem parecidas. Por preguiça de cozinhar, a família resolve recorrer à comida pronta que algum fast food venha lhe trazer em casa. Mas a preguiça é ainda maior que o representante da família não se dá ao trabalho de ir à geladeira retirar o imã com o telefone da pizzaria. Ele agora, sem levantar do sofá, aciona o celular, entra num aplicativo qualquer de versão Ifood e pede sua comida. Seu único esforço será o de abrir a porta e apanhar o pacote quando o entregador chegar.   

Uma pessoa que depende de um aplicativo para receber o seu jantar, em vez de ir ao fogão preparar a sua comida, pratica o direito ao ócio com a falsa sensação de que um programa de computador moveu céus e terras para alimentá-lo, quando na verdade apenas colaborou para a sua paralisia, mantendo-o sentado no sofá.

Mas o computador sobreviverá à essa crítica.  Engessaram o mundo, chiparam nossas mentes, compactaram nosso cérebro e tornaram nossa inteligência binária. O mundo agora é ou não é. Ou está on ou está off. E eu que vivo minha vida com cerca de 70% de incertezas, que passo várias horas absorvido pela beleza da dúvida, formulando hipóteses, tentando de um jeito, depois do outro, errando e consertando, cedo humildemente meu espaço aos que tocam a da vida pelo impulso (ou pelos bites) dos programas e aplicativos de seus personal computers. Mas ainda prefiro grudar o telefone da pizzaria num imã de geladeira. Ainda prefiro perguntar o nome da rua a um transeunte desconhecido na esquina. Ainda necessito do contato com as pessoas para ter a sensação de que estamos movimentando o mundo.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2015)