OS PÃES QUE MINHA MÃE FAZIA

Essa mania de varrer meio tapeado
Me vem do tempo da vassoura de guanxuma
Quando pionava no rincão do gado alçado
Marca saudade que maneio uma por uma (Luiz Marenco)

Esqueçam os versos acima. Guardem apenas a última palavra da segunda linha.  Se quiserem encontrá-la de novo, basta abrir o livro do professor Jayro Matheus de Moaes, e lá na página 36 ele relata: “Papai [...] mandou roçar a guaxuma de um pedaço de pasto da fazenda, colocou traves, marcou as linhas essenciais e divisórias do campo e pronto. Era só jogar.” Entendo que guaxuma e guanxuma sejam a mesma coisa e há ainda a terceira versão que eu dizia quando era menino: guachumba.

Mas não chamemos os especialistas em ervas para nos dizer se essas três plantas são mesmo uma só, porque eles nos convencerão que há uma pequena diferença na quarta folha do terceiro ramo, da segunda forquilha, em cada uma delas. E em respeito ao modo do caipira se pronunciar, também não convoquemos os catedráticos da língua portuguesa para nos ensinar como se escreve o nome dessa pequena planta nativa dos quintais de antigamente. Fiquemos apenas com esse jeito acaboclado que o brasileiro tem de dar nome às coisas e que vai mudando de região para região e até mesmo de vizinho para vizinho. E antes de prosseguir, voltemos da página 36 para a página 23 do livro do professor, onde ele irá nos contar que o menino Jayro saía atrás de ramos de assa-peixe para varrer as brasas do forno, quando se fazia pão em casa.

Minha mãe também fazia pão em casa e as brasas do forno, talvez por uma questão de hábito herdado de minha avó ou bisavó, não eram varridas com ramos de assa-peixe, mas com vassoura de “guachumba”.  Meu pai plantava a vassoura tradicional, colhia-a quando os cachos ficavam dourados,  retirava as  sementes e guardava para plantar no ano seguinte e com as fibras do pendão fazia as vassouras que iriam limpar a nossa casa o ano inteiro. Mas essas vassouras de fibras secas não serviam para varrer as brasas porque iriam queimar como palhas. Então minha mãe ia ao quintal, colhia um feixe de ramos verdes de “guachumba”, amarrava-o, dando duas voltas de arame nele em torno de uma haste roliça, que geralmente era uma vara de bambu, cortava as pontas dos ramos e com eles trazia para fora todas as brasas da lenha que queimava para aquecer o forno. 

Essa cena se repetia todo sábado ou domingo, conforme o tempo que minha mãe dispunha, e nós as crianças, acompanhávamos com alegria e apreensão. A massa preparada na véspera e alisada no cilindro às cinco da manhã, descansava na mesa debaixo de uma toalha, ou de uma manta se fosse no inverno. Dali a uma hora ou hora e meia haveria pão fresco, isto é, pão quente, para gente arrancar os bicos deles, molhar numa caneca de café ou de leite ou até mesmo em algum molho de carne que estivesse pronto no fogão para a hora do almoço.  

Depois das brasas varridas, minha mãe pedia a um de nós que fosse ao quintal buscar uma folha de bananeira que ela recortava em lâminas retangulares, suficiente para caber um pão em cima. Era assim que os pães iam ao forno, sem assadeira, apenas apoiados num retângulo de folha de bananeira. Outra providência antes do enfornamento era molhar a vassoura num balde d’agua e fazer respingar no forno quente. Minha mãe dizia que fazia aquilo para baixar um pouco a temperatura, mas, na verdade, a água que caía no soalho do forno produzia vapor e esse vapor subia para a abóboda, garantindo assim uma temperatura uniforme dentro dele.

Depois ela colocava os pães lá dentro com uma pá comprida de madeira, tapava a boca do forno com uma pequena porta de ripas envolvida numa estopa úmida e regulava o respiro para mais ou menos calor. Em pouco mais de uma hora saía uma fornada completa de pães moreninhos. Assim, por muitos anos vi minha mãe fazer o nosso pão de cada dia.

Angelo Humberto Anccilotto (Mai/2014)