O FALSO CARPINTEIRO

Compro algumas ferramentas para lidar com madeira. Serrote, martelo, prego, parafusos, chave de fenda... Até aí tudo bem. Mas isso não basta para dar acabamento ao meu projeto de fazer alguns consertos em casa. É preciso comprar um formão. Mas já faz uns trinta anos que não ouço ninguém pronunciar esse nome perto de mim. Ainda existe um formão neste mundo em que tudo troca de nome da noite para o dia? E ainda por cima, sou um habitante recente de Santa Catarina, lugar onde a gurizada da escola chama estojo de penal e as definições de ripa, sarrafo e caibro, como já constatei, não são as mesmas de São Paulo. Se eu chegar à loja e pedir um formão a uma vendedora de vinte e poucos anos, corro o risco de ela me responder: “Desculpe, senhor, não vendemos produtos químicos.” E uma grosa? Meu Deus, faz cinquenta anos que não vejo alguém tirar as rebarbas da madeira a lances de grosa. Existirá ainda uma grosa para vender nas boas casas do ramo?  

Sou de um tempo em que se furava a madeira com arco-de-pua e hoje quando peço uma broca para a furadeira elétrica sou obrigado a especificar o diâmetro do furo que pretendo fazer e uma vez decidido o diâmetro é preciso seguir rigorosamente a mesma medida para as buchas e os parafusos. Qualquer variação milimétrica dessas peças pode por tudo a perder.  Mas sou um bravo. Venço as diferenças da linguagem regional, como se estivesse em um país estrangeiro, faço-me entender o suficiente nos depósitos de material de construção e nas madeireiras e vou para casa dar moldes aos meus projetos.     

Há em casa sempre uma escada precisando de reforço, um lambril se despregando, uma fechadura que não roda direito, uma dobradiça já desgastada, uma tábua do soalho partida, uma prateleira nova para montar e o brasileiro não tem por hábito executar esses serviços em seu domicílio; deixa tudo quebrar e depois paga um profissional para arrumar. Mas Deus me colocou no mundo para contrariar essa regra.  Disse que eu haveria de fazer todos os reparos em casa com as minhas próprias mãos. Mas Ele se esqueceu de me dar habilidade para isso. Meu dilema começa nas medidas. Sou dessas  pessoas que nunca cultivaram a exatidão das coisas, sempre perdendo o tem por um minuto de atraso ou reprovando nos exames de matemática financeira   por encerrar o cálculo na segunda casa decimal, o que, segundo o professor,  poderia produzir uma perda milionário em grandes investimentos. Como não tenho grandes investimentos (sequer pequenos) nunca me preocupei com isso.

A carpintaria é um braço da engenharia civil e exige a mesma precisão. Um milímetro fora do prumo para esquerda ou para direita desconfigura a obra e tira-lhe a resistência. E quando percebo que uma bucha não serve no furo que abri na parede e retorno à caixa de ferramentas para buscar outra, levo junto a chave de fenda. Quando retorno com a bucha adequada, percebo que não trouxe a chave que levei. Vou buscar a chave levando o martelo comigo e quando preciso do martelo ele não me acompanhou na volta. E há sempre um parafuso minúsculo que tento atarraxar na madeira, mas ele, desobediente, salta fora e pula no ar. Acompanho seu movimento e seus pulos quando cai no chão na esperança de recuperá-lo, mas parafuso que se preza não foge da fenda para se deixar recapturar. Seu destino é sempre uma greta onde não cabe o nosso dedo ou debaixo de um móvel qualquer. Adeus! Só buscando outro.

E quando volto com o parafuso, a chave de fenda não está mais no lugar onde supostamente a deixei.  Coloco os óculos e saio procurando. Entro embaixo de mesa, subo em cadeiras e nada. Tal como empreiteiro denunciado na Lava Jato, sou obrigado a paralisar a obra por falta de recursos materiais. Resignado, deixo para providenciar novas ferramentas no dia seguinte e vou ao chuveiro tomar um banho para limpar o suor da fracassada missão. E quando visto roupa limpa e calço os sapatos para sair à rua, minha cachorra se aproxima docilmente abanando o rabo e querendo lamber minhas mãos, e então percebo que ela vem roendo algum objeto. Quando peço que ela me entregue o que tem na boca, ela deixa cair no chão um instrumento reluzente. É a chave de fendas.   

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2015)