O SORRISO DA MANHÃ

Eu ia para o trabalho como a maioria das pessoas vai; sem muita animação antevendo os aborrecimentos das urgências imprevistas, as inúmeras chamadas telefônicas, os desacordos das longas reuniões e todo o desgaste natural da carga de serviço.

Eu ia para o trabalho, tendo saído de casa como saem quase todos os homens; apressado, tateando os bolsos, certificando-me de que carregava a carteira, o celular, os óculos, o crachá, todas essas misérias que necessitamos para a faina diária, e despedindo-me de minha mulher com um beijo escorrido nos lábios, empurrando os assuntos domésticos para depois: à noite a gente conversa.

Eu ia para o trabalho como vão os trabalhadores deste país, pensando no saldo da conta no banco e buscando na memória os cheques que ainda andavam por aí aguardando a compensação, elaborando mentalmente uma conciliação contábil entre os débitos e os créditos da conta.

Eu ia para o trabalho como vão os operários desta cidade, enlatado dento de um meio de transporte público, comprimido pela multidão de corpos ao redor, absolutamente imóvel, aguardando com ansiedade a próxima parada do veículo ferroviário, na esperança que o trem esvaziasse um pouco.

Eu ia para o trabalho numa manhã morna e seca, sem grandes expectativas para um dia em que o mundo amanhecera ao mesmo tempo sem tragédias e sem frívolas esperanças. E foi assim, então, que uma mulher, ainda jovem, com um filho ao colo, veio abrindo espaço no corredor cheio de gente, ora protegendo o filho das cotoveladas dos passageiros, ora agarrando-se às guias de ferro, cambaleando ante as intermitências da velocidade do trem.

Tropegamente atravessou o corredor tumultuado até equilibrar-se à minha frente, bem perto da porta, dando sinais que desembarcaria na estação seguinte. Vendo a criança bem de perto, arrisco dizer que tinha a idade entre seis a oito meses. Era um pingo de gente naquela fase em que os bebês começam a ganhar sustentação do tronco, podendo virar a cabeça de um lado para outro, sem risco para a espinha dorsal. Alheio ao tumulto das pessoas, ele observava tudo correndo os olhinhos em todas as direções. Deparou-se comigo a observá-lo, esticou a mãozinha para agarrar o botão do meu paletó, mas a mãe, constrangida, puxou-o para si fazendo-o recostar a cabecinha em seu ombro.

Com o mesmo atrevimento com que um dia ele irá desobedece-la, levantou a cabecinha disfarçadamente, olhando-me de viés, ameaçando sorrir. Tive o ímpeto de esticar os braços e tirá-lo do colo da mãe, mas contive-me a tempo, lembrando que poderia ser confundido com um sequestrador nesta maldita cidade que não distingue entre o bem e o mal. A mãe, num gesto que combinava insegurança com impaciência, apertou o bebê com mais força junto ao colo, mas desta vez ele não desviou os olhos do meu rosto e vendo que eu o observava com ternura abriu-se num sorriso daqueles que enfeitiçam a gente. Todo o seu rostinho se iluminou; as bochechas, os olhos, o semblante, os lábios e a boquinha sem dentes sorriram conjuntamente. O bebê era um grande sorriso em si mesmo.

Na estação, o metrô abriu as portas e a mulher com o filho no colo foi levada pelos passageiros como se a boiada em estouro arrebentasse a porteira da estrada. A criança nos braços da mãe ainda virou o rostinho como se me procurasse, talvez querendo se despedir de um breve amigo que acabara de conhecer. Não era o ponto do meu desembarque. De dentro do trem eu o acompanhei com os olhos vendo-o desaparecer no alto da escada rolante, no meio da multidão. O condutor fez soar o sinal de partida, as portas se fecharam e prossegui minha viagem. Eu já não era o mesmo homem em desencanto com o mundo de alguns minutos atrás.

Em volta de mim, as pessoas que viram a cena entreolhavam-se enternecidas. A pequena criança havia retirado de nossos rostos uma máscara pesada e sombria e colocado no lugar uma inesperada alegria de viver.

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2010)