O VELHO

Estava sentado num banco de madeira à sombra de uma árvore na calçada do Asilo São Vicente de Paula, em Guaraçai. Se o conheço? Não, nunca o vi. Seu rosto não me é familiar e tampouco lhe sei o nome. Mas que diferença faz? Como se expressaria Terêncio, “sou um homem e nada do que é humano me é estranho.” Tinha a camisa abotoada desde o colarinho até a cintura, usava calça de brim, certamente doada, e sandália de tiras. Unhas pretas, dedos cabeçudos e escalavrados nos pés. Na boca um cigarro de palha que se consumia em baforadas lentas, cílios entrefechados; parecia sonhar.

Era de um rosto moreno, bem sulcado e queimado do sol, cabelos desbotados, deve ter sido um agricultor, homem que saiu de sua origem para trabalhar no café, ou um antigo boiadeiro que conduziu boiadas de fazenda em fazenda, que levou boi e vaca para os matadouros, homem de muitas estradas e nenhum destino. Hoje é só um asilado acolhido pela Associação Vicentina do município. Retornava constantemente do seu sonho e voltava ao nosso tempo para responder o cumprimento dos transeuntes, com sua voz rouca, quase inaudível, consumida pela poeira dos caminhos e pela cachaça das vendinhas das vilas por onde andou.

Estou imaginando isso tudo por que nada sei a seu respeito. O que mais me encantava nesse velho eram seus olhos perdidos no horizonte. Parecia isento de tudo, não alheio, isento mesmo, como alguém que ainda participasse deste mundo, sem dever-lhe qualquer tributo. Dava para ver que não se tratava de um olhar infeliz, mas de dois olhos resignados, cansados que procuravam abrigo além das nuvens, e o semblante retratava os músculos abatidos repousando quietos ao longo do corpo maltratado. Imaginava? Recordava? Sonhava com a sua família verdadira que se perdeu por outros caminhos e nunca mais encontrou? Ou que nunca quis encontra-lo? Sonhava com a família de mentira, que nunca teve, mas sempre a desejou?

A unha do polegar direito pressionava a brasa do cigarro preso entre o indicador e o dedo médio da mão esquerda, tentando fazer o fumo queimar e soltar fumaça.  Sobre o banco, ao seu lado, um canivete antigo, alguns retalhos de palha, e dez centímetros de fumo. Era tudo o que tinha na vida.

Passei por ele, disse-lhe boa-tarde, ele respondeu com a voz rouca, me olhou e ainda fez um leve aceno com a mão. Tive vontade de sentar-me ao seu lado e puxar conversa. Ocorreu-me pensar que alguns minutos de prosa faria bem a um pobre velho solitário, mas não sou uma pessoa boa de conversa. O que lhe perguntar? O que lhe responder? Talvez ele risse de alguma coisa que eu dissesse, talvez não entendesse outra. Achei melhor não dizer coisa alguma. O velho tinha direito ao seu sossego e ao seu silêncio, sem querer repartir qualquer palavra com um estranho.

Segui em frente. A vinte ou trinta passos olhei para trás e o vi apagando o cigarro e guardando o toco que sobrou no bolso da camisa. Juntou cuidadosamente o canivete, a palhas e o fumo como quem fosse levar ao cofre toda a relíquia de uma vida. Apoiou-se no batente do portão, puxou o trinco, entrou. Foi dormir.  

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/1991)