DE FLORES E DE GALOS

Se um dia aparecer um louco querendo escrever a minha biografia, deixo aqui uma pequena contribuição de fatos da infância, mas, primeiramente, confesso que se trata de uma possibilidade remotíssima. Minha existência nesta Terra nunca teve nenhum atrativo para ser confidenciada ao público, o que equivale dizer que sou, ao contrário de milhões de pessoas por aí, um desses indivíduos cuja vida não daria um livro.  Mas, em todo caso, fica aqui o registro de alguns fatos que caberiam no primeiro capítulo do livro biográfico imaginário.

Minha mãe criava galinhas e frangos no quintal de casa e criar galinhas não significa apenas atirar milho às aves pela manhã e à tarde. Galinhas envelhecem e morrem, frangos vão para a panela, então havia necessidade constante de repor as baixas. É preciso passar o milho no moinho e triturar para os filhotes novinhos. Mas antes disso, ela escolhia uma dúzia de ovos da melhor aparência possível e levava ao ninho de alguma galinha que estivesse pronta para chocá-los. Voltava e marcava na folhinha da parede o dia em que fez aquilo, e dizia: vão nascer daqui a vinte e um dias.

Três semanas era (e confesso que depois de tantas intervenções do homem na natureza não sei se ainda é) o prazo de incubação dos ovos da galinha caipira. Se na última semana ocorresse lua cheia, minha mãe avisava: vai adiantar um ou dois dias. Assim, aprendi que a lua exerce força sobre os elementos do mundo natural. E quando chegava o dia marcado eu ia logo cedo ao ninho verificar o andamento da maternidade. Geralmente encontrava cinco ou seis pintinhos já nascidos e bem agasalhados, um ou dois ovos que davam a entender que não germinaram e três ou quatro cujos filhotes necessitavam de ajuda para sair da casca. Uns eram bem fáceis, era só segurar o biquinho através do buraco que tinham cavado na casca do ovo e puxar, eles saíam cambaleantes e piando e iam se alojar debaixo das asas da mãe. Havia, porém, aqueles que ainda estavam grudados numa espécie de placenta. A grosso modo eu tentaria explicar dizendo que a gema do ovo forma as novas avezinhas e a clara se transforma numa membrana protetora, e tentar arrancá-los de dentro do ovo quando essa membrana ainda não tivesse se desgrudado deles era morte certa. Era o caso de mantê-los incubados sob o calor das penas da galinha por mais um dia e depois voltar lá e, aí sim, completar o serviço.

Com seis anos de idade eu me tornara autoridade em casa na arte de reproduzir frangos e galinhas caipiras. Até mesmo os ovos para incubar era eu quem escolhia; minha mãe delegara-me com confiança esta missão. Mas depois dos sete anos, entrei na escola e iniciou-se o  meu tempo de preparação para vida adulta. Minha mãe voltou a incumbir-se das galinhas, dos frangos, dos ovos e dos pintinhos. Com o tempo, mudamos para a cidade, como quase todos os brasileiros. Hoje são poucas as famílias que criam galinha no terreiro. 

E aconteceu depois de tantos anos eu voltar a morar numa casa com quintal. Pensei em construir um galinheiro nos fundos, mas acho que a Vigilância Sanitária não me permitiria praticar no perímetro urbano uma atividade essencialmente rural. Aqui no sul, onde vim morar, as pessoas não lajeiam os quintais; umas plantam grama, mas a maioria esparrama pedra britada sobre a terra. Isso evita o barro quando chove e impede o mato de crescer depois da chuva. Mas essas pobres mãos cansadas e aposentadas, que nem para fazer crônicas vem sendo usadas direito ultimamente, queriam produzir alguma coisa. E me pus ao trabalho. Afastei um metro de brita ao redor dos muros, espalhei terra e plantei hortaliças. Mas a Natureza não é complacente com os humildes produtores de saladas. As lagartas devoram as folhas da couve, as lesmas comem a alface e os tomates. É uma luta inglória cuidar das pragas apenas com métodos naturais. Há que se louvar o esforço daqueles que conseguem produzir alimentos orgânicos.

E num momento de desilusão pela horta que não vingava, lancei entre as pedras algumas sementes de flor que Laura havia comprado em um mercado da Romênia, mais precisamente na cidade de Brasov, na região da Transilvânia, perto do castelo onde vivera o príncipe Vlad Tepes, que um maldoso escritor irlandês transformou no monstruoso Conde Drácula. Não vos assusteis, Vlad Tepes é um herói nacional em seu país, embora contestado por seu método nada convencional de se vingar dos inimigos fazendo-os morrer espetados numa estaca de madeira. Mas as flores que plantei não tem nada com isso; são belas e não carregam o estigma do vampiro; as sementes germinam em uma semana, a planta cresce de trinta a quarenta centímetros e em quarenta dias floresce.

O que ocorreu é que as minúsculas plantinhas quando iam surgir encontravam uma pedra sobre elas e permaneciam achatadas pelo peso, sem chegar à superfície. Foi preciso remover as pedras que as esmagavam, foi preciso dar minha contribuição para as plantas acabarem de nascer. Em cerca de cento e vinte dias venceu-se o primeiro ciclo. Nasceram, cresceram, floriram e morreram. Restaram, porém, os núcleos das flores, secos e carregados de sementes. Daí foi dar continuidade ao plantio, abrir  uma valeta de cinco  centímetros de profundidade entre as pedras, espalhar as sementes, cobrir com terra e devolver as pedras sobre a valeta, regar diariamente e depois de sete dias sair procurando os brotinhos verdes entre as britas negras. Isso se repete até hoje. A cada ciclo de quatro meses, recolho as sementes e atiro numa pequena vala entre as pedras e depois saio ajudando os pequenos brotos a se desviarem das pedras que estão impedindo seu crescimento. 

Assim me tornei uma espécie de obstetra da Natureza. Na infância prestei socorro a muitos pintinhos que tinham dificuldade de arrebentar a casca do ovo, e agora, já quase na velhice, ajudo pequenas flores a brotarem entre as pedras. Elas são muito resistentes, reagem bem tanto ao inverno como ao verão. Meu quintal está ficando mais bonito que o jardim da frente.

O tempo vai passando e me transformando num homem de coração mole.  Penso nos pintinhos que ajudei a nascer, que depois viraram frangos adultos e tenho a impressão que hoje eu não teria coragem de vê-los numa panela. Hoje todos eles se tornariam galos; meu quintal seria um viveiro de flores e de galos. E toda madrugada eles cantariam para despertar a cidade adormecida. 

 Angelo Humberto Anccilotto (Jan/2017)