O SEGREDO DOS SEUS OLHOS

Não é propaganda do filme. "O Segredo Dos Seus Olhos" é uma película argentina de bom enredo e de boa qualidade que vale a pena ser procurado no Netflix ou em outro meio de reprodução disponível na web, ou nas operadoras de tevê por assinatura. Mas esta crônica não se destina a debater a penúria do cinema latino, que não sabe explorar tanta História encravada dentro de suas cordilheiras, saltando nos galhos das imensas florestas ou descendo a correnteza de tantos rios e de tantas bacias hidrográficas, ou simplesmente soterrada debaixo dessa política imbecil que se pratica no continente. E com tantos romances, com tanta poesia, ainda há pouca imaginação para se transformar a literatura latina em cinema. Então vêm os americanos e usam nossas paisagens como cenário para seus enredos.  E quando surge um bom filme feito abaixo da linha do Equador, convém divulgá-lo, mas o segredo que vejo em seus olhos, ou antes, que não vejo em seus olhos, é outro.

Neste momento penso nos modernos meios de comunicação, nos grupos de pessoas que se formam a partir de aplicativos baixados nos telefones celulares, nas redes sociais, nos grupos de discussão, nas oportunidades de se comentar matérias na mídia on line, na aprendizagem eletrônica que vem dos e-learning da vida, enfim, estou pensando em todo o vasto meio de comunicação à distancia que tornou desnecessária presença dos interlocutores. O mundo tem aprendido a se comunicar assim, com os dedos e o teclado. A voz humana está desaparecendo, se continuar assim, discos gravados serão guardados nos museus para preservar a memória do tempo em que as pessoas emitiam expressões verbais pela boca.

Quem escreve isso é uma pessoa de pouca eloquência e que em muitas ocasiões já foi desafiada a se pronunciar sobre o assunto em pauta, seja em ocasiões formais ou informais, portanto era de se esperar que o autor dessas linhas se sentisse mais a vontade se a palavra digital (ou digitada) viesse algum dia ter preferência sobre a palavra falada. Mas não é bem assim. Gosto de conversar - a dois, de preferencia. Gosto de longo silêncio que se forma entre uma frase e outra. Mas, sobretudo, gosto de saber que duas pessoas que conversam são duas pessoas que se olham. É impossível alguém dizer que está triste quando os olhos não manifestam essa tristeza, ou, o que é ainda pior, ninguém jamais poderá confessar uma alegria sem o que os olhos carimbem as palavras.  Não confiemos nesses milhares de livros de autoajuda que mandam as pessoas sorrir, seja qual for o estado da alma. Todo o riso e toda angústia não transfigurados pelo olhar é uma indecência.

A comunicação à distância libertou os interlocutores de se olharem reciprocamente dentro dos olhos, esse grilhão que prende a palavra à verdade ou a denuncia como falsa. A expressão dos olhos no diálogo forma o lastro que equilibra a serenidade da sabedoria ou arrasta para o fundo o vazio do desconhecimento, produz o reflexo da empatia ou faz soprar o vento da indiferença. No filme "O Segredo dos Seus olhos", a forma como um rapaz olha para uma moça numa sequência de fotografias antigas desencadeou uma bem sucedida operação policial, conduzida por um investigador que entendeu o desejo secreto daquele olhar. Meu medo é que nos acostumemos tanto a conversar com os dedos em longas distâncias que em breve não saberemos mais interpretar os olhos das pessoas. Seria uma grande e traiçoeira ajuda para um mundo em que ao tempo que crescem as espionagens e as patrulhas cotidianas, cria, paradoxalmente, a facilidade de mentir.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2016)