INFINITOS QUE SE ACABAM

“... E olhando o seu rosto que também se encontrava cheio de lágrimas murmurei como um morto:  Já cortaram, papai! Faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima”.

Se não estou enganado, essa é a frase final do livro “O Meu Pé de Laranja Lima”. E essa é a tristeza de um menino que tinha num pé de laranja lima o seu grande amigo, que o acolhia em sua sombra, que o deixava subir nos seus galhos e conversava com ele. Quando a gente nasce, existe um mundo pronto nos esperando. No mundo do garoto da história do livro havia um pé de laranja de lima no quintal, mas pode ser qualquer árvore. A família, a casa, o quintal, as plantas, os quadros na parede, os objetos domiciliares, os vizinhos, a cidade, as construções, os morros, os rios etc. O país inteiro e todo o estrangeiro existem e nós somos lançados nesse mundo para coexistir e interagir com o que nos cerca. O primeiro pensamento que passa pela cabeça da gente, quando começamos a distinguir as coisas, é que tudo que está ali sempre existiu e sempre existirá. O mundo que nos acolheu existia antes de nós e continuará conosco até o fim da vida, e ainda permanecerá assim depois da nossa morte. Há uma ideia de infinitude em tudo que vemos.

Um dia, ainda pequeno, vi meu pai jogar fora a cinta que ele usava para segurar as calças. Perguntei se ele não ia mais usá-la e ele respondeu que aquela cinta não prestava mais. Talvez tenha sido esta a minha primeira visão do fim. E quando aos doze anos de idade li O Meu Pé de Laranja Lima, eu já sabia que as árvores não duram para sempre. Uma mangueira e uma goiabeira já tinham sido cortadas no quintal de casa, a primeira porque estava velha demais e a segunda porque cresceu muito e fazia sombra sobre o varal onde minha mãe secava a roupa. Neste intervalo de 57 anos desde que nasci, aos poucos a sensação de infinito foi cedendo lugar ao conceito de limitação. Tudo atinge o seu limite de existência e nos deixa, por uma razão ou por outra.

A primeira reação é de inconformismo, de desilusão, até de desesperança, não a desesperança do desespero, mas a desesperança de continuar acreditando no mundo que vai-nos subtraindo aquilo que de alguma forma nos pertencia, que estava lá, aguardando o nosso nascimento. Quando nasci existia Pelé jogando futebol, e fui crescendo e conhecendo futebol tendo na imagem de Pelé a própria imagem desse esporte. Pelé e futebol eram uma coisa entrelaçada na outra, indissolúvel e sem fim. Mas veio um tempo em que se anunciou que Pelé não jogaria mais futebol. Mas o futebol vai existir sem Pelé? – pensei secretamente. E custou-me acreditar que me tornaria moço sem poder vê-lo jogar novamente. A carreira de Pelé foi traumaticamente interrompida dentro de mim, antes de ser nos gramados.

 E depois vieram outros fins. Em poucos anos vi partirem os meus quatro avós, depois alguns tios e tias, e mais recentemente minha mãe. Na tenra juventude já havia perdido o primeiro amor, aquele que me transmitia a sensação que era eterno. Eu sobreviveria? Sobrevivi e vivi para constatar que aquele amor foi infinito apenas enquanto durou, como diria o poeta.

Costumamos dar o nome de perda a esses desaparecimentos que ao longo da vida vamos acumulando. E fazemos isso por que temos a ilusão que tudo nos pertence. Temos a sensação de que o que acaba foi dramaticamente retirado de nós. Mas as árvores do quintal que secam, os objetos de casa que estragam, as construções que são demolidas na cidade, os avós, os pais que nos deixam órfãos, os amigos que se vão antes de nós, as paixões, apenas chegaram ao limite da existência. O infinito não é a continuidade indefinida do que é individual e personalizado, mas a soma dos limites de todas as existências através do tempo.

Amgelo Humberto Anccilotto  (Out/2016)