EU SOU O ÚLTIMO

Isso aconteceu há mais de trinta anos, na idade da pedra da automação bancária. No tempo em que as agências de banco tinham trinta caixas para atender ao público e na frente de cada caixa se formava uma fila de cinquenta clientes que iam sacar cheques, requisitar talão, depositar na caderneta de poupança, pagar a conta de Luz, o carnê do Sílvio Santos e do INSS. Quando a gente entrava num banco, corria o olho nas filas e pegava aquela que estivesse mais curta. Mas, como dizia um velho samba do tempo da malandragem carioca: “laranja madura, na beira da estrada / tá bichada, Zé / ou tem marimbondo no pé”. Certa vez encontrei uma fila pequena, bem menor que as outras e entrei. O rapaz da frente virou-se pra mim e disse: “Eu sou o último”. Como eu estava atrás, não me preocupei; não estava tomando o lugar de ninguém. Passou um minuto e ele voltou a dizer: “Eu sou o último!”. Sim, não havia dúvida que a fila terminava nele, e não entendi a razão de uma afirmação tão óbvia. Permaneci onde estava, mas o moço repetiu pela terceira vez que ele ara o último.

 Se a língua portuguesa escrita já não é fácil de entender, falada ela se complica mais ainda.  A pessoa pensa que explicou, mas entre o que o emissor fala e o que o receptor entende tem muita diferença. Imaginei que ele estivesse querendo puxar assunto, dizer que estava deprimido, sentindo-se incompetente, a mais vil e mesquinha criatura da face da terra, a que não tinha motivo algum para ser feliz, que era o “último”, aquele que na corrida da vida tinha sido ultrapassado por todos. Perguntei: - O que você quer dizer exatamente com “eu sou o último”? E veio a resposta desagradável. - “A moça do caixa só vai atender até aqui e pediu para eu avisar os quem entrassem depois de mim”. Nisso, as outras filas já tinham crescido; um senhor quis ficar atrás de nós, mas eu o impedi veementemente: “Nesta fila, não! Ele é o último!”. E saímos procurando outro lugar.

 Em casa, eu compro bananas quase todos os sábados. Trago as bananas ainda verdes e com o calor que anda fazendo em dois dias já estão pintadinhas. Percebo, porém, que todo mundo vai pegando uma, depois outra, e sempre fica a última. Fica uma única banana na bandeja que ninguém quer comer e ela acaba apodrecendo. E percebo que isso ocorre em muitas situações. Uma porção de qualquer coisa pedida numa mesa de bar, o último pedaço fica no prato. Todo mundo olha e finge que não quer. Um oferece pro outro: pega! Não, pode comer, diz o outro. Nisso, vem o garçom, recolhe o prato e lá se vai a última fatia de calabresa frita ou o último cubinho de provolone para o lixo.

 Em festa de aniversário é a mesma coisa. Servem-nos bandejas de salgadinhos, todo mundo belisca daqui, belisca dali e fica um coxinha isolada no prato. Você não quer esta última? Não obrigado! Já estou satisfeito. Nem as crianças se arriscam a quebrar a regra. Não sei que estranho sentimento altruísta se apossa do nosso coração nesses momentos ou que refinada educação nos faz ser tão solidários. Renunciamos unanimemente o último pedaço em prol dos outros e perseveramos nessa decisão até o ponto de ninguém se aproveitar dele. Vocês devem estar achando essa conversa meio sem graça, não entendendo direito a relação do primeiro parágrafo com o resto do texto, mas sempre que vejo alguma coisa isolada sobrando na mesa, fico imaginando que o penúltimo pedaço deva ter avisado aos demais: Eu sou o último, depois que me espetarem no garfo ou no palito, o que estiver atrás de mim vai sobrar.

 Mas a minha mais profunda recordação desses restos finais é do meu tempo de estudante, quando tínhamos na turma um rapaz, a quem chamávamos Zenon e uma moça, Ana Cristina, que estavam namorando. Zenon era bom moço, bom amigo, mas não era um bom exemplo de namorado. Certa vez terminaram o namoro, Zenon não veio à aula na sexta-feira e Cristina (como a chamávamos) tirou a noite para se lamentar comigo. Dizia que o namorado não a respeitava, que era mulherengo, paquerador, não queria saber de compromisso, e eu, do meu lado, tentava dizer-lhe palavras amenas e opostas, sempre procurando consertar a situação, até uma hora não deu mais e falei: Então procura outro, arruma outro namorado, nem que seja para ele sentir o risco de te perder. Mas ela disse que estava mal, que achava que não ia conseguir namorar ninguém, que se sentia como a última moça da faculdade a quem alguém quisesse namorar. Tive vontade de tomar seu rosto nas mãos, afagar seus lindos cabelos loiros e dar-lhe um beijo para convencê-la do contrário, mas contive-me a tempo. Isso, no entanto, não me impediu de criar certa fantasia na cabeça e passar o fim de semana pensando nela e achar que a moça viera se desabafar comigo talvez porque estivesse interessada em mim, etc.. etc... essas ilusões bobas em que os jovens devaneiam quando têm vinte e poucos anos. Mas na segunda-feira, assim que coloquei os pés na porta da faculdade, lá estavam Cristina e Zenon de bem outra vez, subindo as escadas, abraçados e sorridentes, ele com a mão em volta do pescoço dela, ela com a mão em volta da cintura dele.  Disfarcei, fui ao banheiro, dei um intervalo de cinco minutos e cheguei na sala depois deles. Naquela noite senti uma espécie de desprezo por mim mesmo e assisti às aulas como se fosse o último aluno da classe. Aquele que após o sinal da saída, permaneceria sentado até que a sala se esvaziasse e depois fosse varrido pelas faxineiras, recolhido com o lixo do chão, depositado num saco preto e levado para incineração.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2012)