AS PITANGUEIRAS

Não lembro se foi antes ou depois do Natal. Sei que era um dia de céu limpo e sol muito quente, mas não me recordo se era novembro, janeiro ou março. Sei apenas que era tempo de pitangas. Eu andava por uma rua em Balneário Camboriú e não estava exatamente feliz porque saíra de um consultório médico e se não trazia no bolso nenhuma receita de remédio, carregava vários pedidos de exames. Consulta médica, exames, remédios, tudo isso aborrece e, para disfarçar essa pequena amargura, almoçamos, eu e Laura, na orla da praia. O filé de pescada com queijo gratinado e molho carbonara restaurava-nos não apenas o estômago mas também a  nossa alma entristecida. E quando saímos do restaurante, andando pelo interior da cidade, um pé de pitanga no passeio público se desmanchava em frutas vermelhinhas caídas na calçada.

Pitanga não faz parte das frutas da minha infância. O primeiro impulso foi desviar delas e seguir em frente, mas sou homem do interior, daqueles que sentem dor no coração ao ver uma fruta desperdiçada. Juntei seis delas que estavam no chão, coloquei num saquinho plástico que tinha comigo e fui embora. Não tinha intenção de consumi-las, não as colocaria na mesa no café da manhã, e nem na sobremesa do dia seguinte. A ideia que me ocorria era plantar as sementes.

Deixei alguns dias no sol até que secassem depois retirei a semente de cada uma delas e plantei em pequenos vasos que já tinham sido incubadores de outras plantas. Algumas semanas depois quatro sementes brotaram e mais tarde as duas retardatárias brotaram também. Algum leitor mais atento que já leu outra crônica deste site, chamada “Lupinos” deve estar achando tudo muito parecido; sementes na terra, a expectativa de que elas germinem, depois os cuidados meio desajeitados de quem ama as plantas mas não sabe exatamente como lidar com elas. As semelhanças terminam aí. Daqui para frente as duas crônicas seguem caminhos opostos. Em Lupinos sofri pela vida das sementes que nasceram, lutei a meu modo, com prazer e esperança, para fazê-las crescerem. Agora, com as mudas de pitangueiras, sou uma representação de anjo da morte, um algoz que tem de descartar quatro das seis mudas que nasceram, uma espécie de patriarca a oferecer em sacrifício a imolação daquelas a quem deu a vida.  Desde o princípio eu sabia que só tinha dois espaços para árvores no quintal, o terceiro eu usei para plantar um pé de mexerica ponkan e o quarto foi usado por um mamoeiro. Se plantei seis sementes de pitanga foi por medo de que nem todas nasceriam.

Mas ali estão as seis plantinhas, alegres, crescendo dentro de um minúsculo vaso, e duas delas serão replantadas no quintal. Mas o que fazer com as outras quatro?  Arrancá-las e jogá-las no lixo, esquecendo-me delas rapidamente como se nunca existiram? Deixar de regar até que se definhem completamente por falta de água no solo? Sair pela vizinhança perguntando se alguém tem interesse em quatro mudas de pitanga? Esta última alternativa era uma saída honrosa. Bati de casa em casa, ninguém queria. Pitanga não é fruta tão apreciada assim como eu pensava, espaços nos quintais são exíguos e reservados para frutas mais saborosas. 

Confesso que cheguei a pensar em jogar os vasinhos com as mudas no quintal do vizinho, como Joquebed a lançar Moises num cesto rio abaixo. Se ninguém as acolhesse o problema não seria meu, seria do vizinho que não deu a mínima importância a um sinal enviado do céu. Mas para que transferir ao vizinho a minha culpa? Eu plantei as sementes, compete a mim cuidar das plantas. Escolhi as duas mais viçosas e transplantei-as no quintal. As outras quatro deixei nos vasos e ignorei-as.

Ignorei-as? Não há espaço na consciência de um homem de bem para ignorar uma vida, ainda que seja a humilde vida de uma planta. Sempre que regava  as duas prediletas, jogava um pouco d’água nos vasos das quatro renegadas, algo como o suficiente para que não morressem no calor e não o bastante para que sobrevivessem. Isso funcionava como um comprimido para ressaca, que nos tira a dor de cabeça do excesso etílico, mas não nos garante a sobriedade absoluta. A sobrevida das quatro plantinhas aumentava meu sofrimento e cada vez que ia vê-las sentia que uma delas estava a cada dia mais crescida, mais verde e mais enfolhada. E se eu tivesse escolhido errado? E se as duas que replantei não vingassem?  Reexaminei o quintal, pensei em cortar o pé de mamão, mas o dilema era o mesmo: uma vida em troca de outa vida, quando o certo seria outra vida se juntando às vidas existentes. Por fim decidi que, ao menos aquela que resistia bravamente ao calor com pouca agua seria acomodada no solo entre as duas antes escolhidas. Pensei como um pai pensa em uma casa pequena acomodando as três filhas num só quarto. Pois elas que se unissem e crescessem dividindo seus espaços.

Esta última pitangueira é hoje a que mais se desenvolveu. Tem três ramos crescendo, já perto de meio metro de altura. Elas crescem mesmo como irmãs, dividindo seus segredos e seus apuros – assim imagino eu.  As outras três que não replantei, secaram. Ficaram seus raminhos secos espetados nos vasos. Evito olhá-las de perto, sequer tive coragem de removê-las depois de mortas.  Torço para que as outras cresçam logo e me deem muitos pássaros no quintal e alguma sombra amiga onde eu possa armar um banco ou uma rede e descansar dos longos remorsos desta vida.   

Angelo Humberto Anccilotto (Out/2016)