HISTÓRIA DE BEM-TE-VI

Quem quiser ler uma história melhor que a minha, leia a crônica “História de bem-te-vi” de Cecília Meireles. Lá ela fala da possível extinção dessa ave, e toma por base a irreverência das novas gerações de bem-te-vi, que já não cantam mais como os antepassados. Em vez de Bem-te-vi, eles assobiam apenas Te-vi...

A nova geração de seres humanos também anda abreviando muito. Parece que se tem preguiça de falar o nome completo das coisas. Antigamente se ia a Pindamonhangaba, agora se vai no máximo a Pinda. Ninguém vai ao Rio de janeiro, só vai até o Rio. Ninguém compra passagem para Florianópolis; contentam-se com Floripa. Só se vai a Sampa em vez de São Paulo, e a viagem aos Estados Unidos acaba nos States. 

Chamamos as pessoas também apenas pela primeira sílaba do nome. Assim, Luiza ficou Lu, Vanessa é só Van, Michele é Mi, Guilherme é Gui,  e por aí vai. Mas pensando bem não foi a nova geração que inventou isso. Nós também abreviávamos. Antônio era Tonho, José era Zé e Sebastião era Tião. O ser humano sempre primou pelos atalhos nas suas jornadas.

Mas então, no meu quintal apareceu um bem-te-vi bem mais irreverente que o de Cecilia Meireles, pois quando despejo comida no comedouro ele salta da palmeira para o chão e começa a cantar não Bem-te-vi ou Te-vi, mas apenas Vi. E repete varias vezes prolongadamente: Viiiiii, Viiiiii. 

Fico imaginando se ele estará anunciando à passarada que me viu colocando comida, portanto há refeição fresquinha no comedouro, ou se ele tem um amigo de nome Vinicius, por exemplo, com quem ele queira dividir o prato. Viiiiii, Viiiiiii. Mas não aprece nenhum outro bem-te-vi.    

Angelo Humberto Anccilotto (Jul/2015)