O FASCÍNIO E OS FASCINADOS

Conto o milagre, mas não digo o santo. Aliás, são dois milagres para contar, cada um de um de um santo diferente, mas não me atrevo a revelá-los.  Vai que eles negam essas histórias...

Na minha juventude trabalhei numa grande indústria nacional, uma das mais importantes do segmento de autopeças. O dono dessa empresa era um senhor de idade que não era levado muito a sério entre os funcionários, porém, segundo dizem, era muito respeitado no Conselho de Administração, e a assembleia dos acionistas não hesitava um segundo sequer em reelegê-lo para presidente, mandato após mandato. Mas as reuniões dos acionistas aconteciam á noite e o teor das discussões não era coisa que chegasse aos pobres mortais do chão de fábrica. Então, durante o dia, prevalecia a ideia de um velho excêntrico, brincalhão, que não falava coisas sérias, como era de se esperar de um dos maiores empresários do Brasil.  E acontecia dele passar no meio da sala de projetos e falar com aquela voz de barítono que possuía: “Seus vagabundos, vou mandar todos vocês embora!”

Ao som da sua voz, as cabeças dos projetistas e dos desenhistas se erguiam das pranchetas, os engenheiros olhavam pelas divisórias de vidro de suas salas e davam uma bela gargalhada. Isso acontecia frequentemente, toda vez a cena era a mesma: ele falava, os empregados riam.  Na verdade, o caminho que ele fazia no meio da sala não era facultado à circulação de pessoas.  Nenhum funcionário alheio ao setor podia utilizar o corredor para se dirigir a outras dependências da fábrica. Quem ousasse seria barrado e convidado a dar a volta pelo lado de fora que era a área de circulação oficial. Mas quem haveria de dizer ao dono da fábrica que ali não era local de passagem? E quem haveria de questioná-lo: “ Outra vez a mesma piada? O senhor não se cansa não?”

Ele não se cansava, se passasse duas vezes por dia naquele lugar, nas duas vezes diria a mesma coisa: “Seus vagabundos, vou mandar todos vocês embora” – e ouviria as mesmas gargalhadas.  Eu ficava imaginando por que as pessoas davam risada de um comentário tão repetitivo e tão sem graça. Ali existiam engenheiros formados nas melhores faculdades do Brasil e até do exterior, projetistas conceituados na arte de forma às peças automotivas e desenhistas hábeis na lida com a régua e o nanquim, o que essa gente achava de tão engraçado na frase do velho? 

E aconteceu mais recentemente o segundo milagre. Desse eu não participei diretamente, apenas fiquei sabendo por meio de um amigo que assumira um cargo numa indústria de roupas esportivas, dessas que fornecem uniformes para times de futebol. Aconteceu de  essa empresa querer dar de presente ao presidente da República um agasalho esportivo para suas eventuais caminhadas matinais nos arredores do palácio, em Brasília. E coube ao meu amigo escolher as peças e mandar o motorista entregar no endereço em que o presidente se encontrava em São Paulo naquele dia.  Três dias depois um assessor do presidente compareceu à fábrica e, dirigindo-se ao meu amigo, disse que precisava trocar o presente.  Meu amigo, constrangido, pediu desculpas imaginando que tinha errado o tamanho, mas o caso não era bem esse.  As peças estavam no tamanho certo. O presidente era barrigudinho e, apesar de não ter estatura elevada, suas roupas, quando não medidas em números, eram do tamanho GG.  E esse era o problema. O presidente não queria que ninguém soubesse que ele usava o tamanho GG, porque transmitia uma ideia de alguém muito fora de forma, de poucos cuidados físicos e alimentares. O que o assessor queria, na verdade, era que fossem trocadas as etiquetas das peças do agasalho. Em vez de GG, apenas G, assim quem, porventura, quisesse saber o tamanho das roupas do presidente, se convenceria de que não era GG.

As peças foram levadas para linha de produção, uma costureira foi designada  para a tarefa de arrancar a etiqueta certa e pregar no lugar a etiqueta errada. E isso foi feito com muito gosto, com muita prestatividade, afinal, na palavra dos empregados da fábrica,  o presidente nem era tão gordo assim para usar GG. Ele tinha mais é que mandar trocar mesmo.

Hoje eu fico imaginando se eu passasse naquela sala onde o meu patrão passava e chamasse a todos de vagabundos e que ia providenciar suas demissões. Imagino-me também chegando à fabrica de roupas esportivas pedindo para mudar a etiqueta do agasalho que acabei de comprar. Certamente ninguém iria rir do meu comentário como riam do que o velho dono da metalúrgica dizia e os operários da fabrica de agasalhos esportivos iriam me escorraçar de lá: “Sujeito que não enxerga, abusado, toma todas e quer parecer que está e, boa forma...”

Pois é, o rei continua nu. Todos os reis permanecem nus. Mas aos olhos do povo os reis sempre estarão impecavelmente bem vestidos. O povo teme  reconhecer a nudez do rei e sempre achará graça nas piadas que o rei faz. O rei tem poder e o poder é um fascínio para seus súditos. Então, fascinadamente, nós, os mortais, vamos oferecer boas risadas ao rei em troca do privilégio dele nos dirigir qualquer palavra. Vamos enviar humildes presentes para o rei e vamos trocar as etiquetas de suas roupas com alegria.... E quem tiver mais posse, manifeste seu fascínio dando um apartamento, um sítio, uma fazenda para o rei. 

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2016)