SEMENTES DE GERGELIM

Do centro da cidade telefono para casa e pergunto à milha mulher se ela quer alguma coisa da rua. Ela me pede que passe no supermercado e traga um pacote de gergelim. Estremeço. Não sabia que os supermercados vendem gergelim. Achei que só o encontraria nos empórios de produtos de alimentação alternativa, estocado com as granolas, as quinoas e os gérmens de trigo. Mas, para minha surpresa, o supermercado tinha gergelim.

Saio de lá com meio quilo e fico imaginando como aquelas sementinhas seriam consumidas. Minha mulher recebe a encomenda das minhas mãos, põe numa forma refratária e leva ao forno para torrar. Em seguida retira e despeja sobre o frango que estava cozinhando. O que sobra ela deixa de lado no fogão. Eu passo, apanho um punhado e levo à boca como se fosse um punhado de farofa.

A cinquenta anos atrás eu via uma velha senhora, uma vizinha nossa, abrindo vagens numa bacia e juntando nela grãos tão branquinhos, que nós, as crianças, não sabíamos o que era. Poderia ser feijão. Às vezes o feijão da dispensa acabava antes de se colher o que estava plantado, então as mulheres da roça apanhavam vagens precoces e debulhavam numa bacia para cozinhar. A colheita ainda demoraria uma ou duas semanas e elas se antecipavam, catando as vagens mais secas, para que a família tivesse sempre o mesmo feijão com arroz no almoço e na janta.

Mas o que dona Adalgiza debulhava não era feijão, era gergelim. A gente dava risada desse nome. Parecia angelim. Ela mesma plantava, ela mesma colhia e ela mesma debulhava. O marido e filhos a questionavam sobre o tempo perdido nesse trabalho que não lhe proporcionava nenhum lucro, ela só respondia: Eu gosto! Graças a dona Adalgiza, eu sou um dos poucos homens deste país que conheceu um pé de gergelim, e isso me dá uma certa superioridade sobre essa geração a quem o Mcdonalds trata  com  hambúrguer no pão com gergelim.

No outro dia Dona Adalgiza punha a bacia com as sementes no sol para secar. A molecada passava em volta, juntava um pouco na mão e saía mastigando.   Comer sementes de gergelim cruas, colhidas há poucos dias, e ter uma vizinha com um nome desses, tão importante: Dona Adalgiza – me fazia viajar pela imaginação e pensar que ela não era só aquela mulher bondosa e humilde mas  uma rainha árabe, que por força do destino veio morar perto de nós.

Não tenho mais seis ou sete anos de idade. Não tenho onde plantar gergelim em casa. Resta-me sentar para o almoço e lembrar de dona Adalgiza com um lenço na cabeça, enfrentando  o sol da tarde, plantando e colhendo gergelim. As vagens colhidas jamais foram arrancadas da minha memória. A boa senhora já se foi, eu cresci e sou este homem à mesa, almoçando o sabor do gergelim torrado sobre o frango, e isso me faz grande por dentro, ao mesmo tempo me faz pequeno de novo por fora. De súbito vou até ao fogão onde ficou a tigela com as sementes torradas que sobraram, apanho um punhado delas e volto para a mesa mastigando. Olho em volta meio envergonhado para ver se Dona Adalgiza está me observando.

Angelo Humberto Anccilotto (Set/2016)