ESTÓRIA DE AMOR PARA NAMORADOS

Domingo próximo, dia 12 de junho, celebra-se no Brasil o dia dos namorados. Alguém me sugere que escreva uma estória de amor, como uma ilustração da data. Confesso que não sou hábil com o tema; o amor tanto mais universal será quanto mais individual for. Cada um ama a seu modo, que pode não ser o modo como eu contaria a estória.

 Mas se eu fosse escrever uma estória de amor, essa estória seria narrada em três épocas distintas que iriam se intercalando no enredo e se completando de tal forma que o final desse romance não ficasse tão longe do começo, o que poderia se tornar uma espécie de leitura em 3D.   

 Mas não é possível em uma única coluna de jornal criar esse efeito tridimensional, por isso, resumindo-a aqui, posso, quando muito, narrá-la em fatos sequenciais, de um jeito bem tradicional, com início, meio e fim.  Seria algo mais ou menos assim: Em 1971 um rapaz e uma moça, ainda bem jovens, se conhecem e se apaixonam de uma forma que o mundo não tem mais graça quando não estão juntos. Acontece que para estarem juntos era preciso estar escondidos, pois o pai da moça era inimigo do pai do moço. Romance entre as famílias só mesmo passando por cima do cadáver dos velhos. 

 Encontravam-se às escondidas, porque se o romance vazasse e ganhasse a boca do povo, a moça estaria perdida.  Toda vez que ela saía de casa para os encontros era uma verdadeiro ritual de disfarces e mentiras.  E o pai dela sempre de olho. Certa tarde os dois namorados  marcaram um encontro na confeitaria da cidade (era uma cidade pequena). O rapaz chegou, sentou-se a uma mesa, tomou um café, fumou um cigarro. Olhava para o relógio de minuto em minuto. A moça quando ia saindo de casa na ponta dos pés foi flagrada pelo pai e conduzida de volta para o quarto e, segundo a promessa do velho, ela só sairia de lá quando jurasse que nunca mais se encontraria com o moço.

 E o moço, depois de mais de uma hora de espera, deixou o local cabisbaixo e aborrecido. Achou tudo aquilo complicado. Talvez a moça não tivesse forças para lutar. Talvez não o amasse o suficiente para essa luta. Talvez ela sofresse demais se ele continuasse por ali. Deixou atrás de si todas essas dúvidas e um cinzeiro cheio de tocos de cigarros. Foi até à estação ferroviária, comprou um bilhete e embarcou para longe no trem que partia.

 A vida de ambos prosseguiu, um longe do outro. O rapaz arrumou emprego, o tempo foi passando, outra moça apareceu em sua vida, ele se casou, viajou, teve filhos, netos, até sentir que a idade vinha chegando, e com a idade as lembranças (que deveriam ficar mais fracas) foram se fortalecendo e se tornando mais presentes. Por seu lado, a moça também se casou com um rapaz em quem o pai depositava confiança, também teve filhos, netos, o marido prosperou, ela ficou mais rica, pois que já vinha de uma família de posses.  

 Em 2011, o rapaz, agora já um senhor de idade que nem precisava mais trabalhar, resolveu voltar à cidadezinha de onde tinha saído. Ele não estava mais casado. Não exijamos a razão dessa sozinhez, pois há no mundo muitos motivos pelos quais os casamentos se acabam. Teria ficado viúvo?   A esposa o teria abandonado? Divorciaram-se? Deixamos em suspense essas perguntas, pois do outro lado, a moça que ficou na cidade, agora com os cabelos grisalhos sempre escondidos num lenço elegante, também vive livremente. De igual modo não busquemos a razão dessa liberdade ainda que tardia.

 Na cidade, os dois se veem de relance uma vez. Numa outra vez se falam apressadamente. Dizem pouca coisa, apenas o suficiente para saberem que ambos ainda estão vivos. Outras vezes se veem de passagem. Despropositadamente, segundo querem se fazer entender, um vive passando pelo local onde seria fácil ver o outro. Conversam um pouco mais, depois mais demoradamente, e ambos percebem que a atração da juventude permaneceu. Marcam um encontro na antiga confeitaria que em tempos modernos se transformou num estabelecimento misto, variando entre lanchonete, padaria e fast food.

 O homem de novo chegou primeiro. Pediu um café, mas já não fumava mais havia muitos anos. Levou a xícara aos lábios em movimentos lentos como se bebesse a longa recordação do passado. Novamente olhava impaciente para o relógio. Os ponteiros avançavam deixando para trás a hora combinada e a senhora nada de aparecer.

 A pobre mulher, quando ia sair de casa, foi alcançada por um neto que lhe pediu alguma coisa, depois a neta apareceu e pediu ajuda também; o telefone de casa tocou, ela foi atender e ficou presa na conversa. Enfim, quase em desespero, se desvencilhou de todos esses obstáculos e saiu apressada sem se importar com quantos mais ainda continuavam a chamar por ela em casa. Entrou na lanchonete quase correndo no momento em que o homem fazia menção de se levantar, no instinto aflito de mais uma vez ir embora. Desta vez para sempre! Ela se aproximou meio sem jeito, pediu desculpas pelo atraso e perguntou:

- Você esperou muito?

 O homem tomou-lhes as mãos carinhosamente, olhou em seus olhos com um olhar onde ao mesmo tempo fulgiam a luz de um sorriso e o brilho furtivo de uma lágrima que ameaçava rolar pelas pálpebras, e respondeu em voz baixa, quase num sussurro:

- Quarenta anos! 

 Assim seria a estória de amor que eu escreveria para o dia dos namorados, mas não preciso me dar a esse trabalho pois ela já existe nos arquivos da dramaturgia brasileira. Essa estória é a trama central de uma novela que foi ao ar há muito tempo como o titulo de “O Casarão”. Nunca mais foi reprisada, nem editada, nem refilmada. É um belo romance que repousa nos museus da televisão brasileira e por alguma estranha razão a Rede Globo entende que não vale a pena ver de novo.

Angelo Humberto Anccilotto (Jun/2011)