O  MELHOR CARNAVAL

Aconteceu um dia desses de um amigo me dizer aleatoriamente, numa conversa de bar, que o melhor carnaval dele tinha sido um de quarenta anos atrás. Estranhei tal revelação porque, pelo que me consta, jamais o vi envolvido em alguma folia dessas, e estranhei mais ainda porque há quarenta anos o carnaval sequer era feriado. Apenas a terça-feira era facultada ao descanso dos foliões, embora muitos varassem a noite nos salões e se permitiam descansar na segunda-feira por conta própria. Onde estaria a maravilha desse carnaval antigo que ele agora relembrava com tanta nostalgia?

Todos nós temos certa tendência a classificar um Natal bem distante como o melhor das nossas vidas, um ano escolar, cuja turma foi inesquecível e que jamais encontramos outra igual na vida, e agora um carnaval que meu amigo elege como o melhor do tempo que passou. Resolvi desafiá-lo a me confidenciar que aventura ele teria realizado que deixara essa marca na lembrança e ele iniciou tal confidência da forma mais obtusa dizendo que só agora viera a saber que aquele carnaval foi o grande carnaval da sua vida.

Tivera uma namorada naquele tempo, namoro por cartas, o que hoje não faz muito sentido. Ele em São Paulo, trabalhando e estudando, ela no interior, não foi possível viajar para encontrá-la. Mas ficara previamente combinado que nenhum dos dois iria a qualquer baile de carnaval que acontecesse naqueles dias. Como uma espécie de penitência ao amor, eles se absteriam de por os pés em qualquer salão de dança. Logo ele viajaria para vê-la, o carnaval não haveria de fazer falta para nenhum dos dois.

Mas quem há de controlar o ímpeto da juventude? Dez dias depois ele recebia uma carta da namorada com ela explicando que fora ao baile. Duas noites. Temendo que a notícia chegasse a ele por terceiros ela mesma tratou de explicar tudo de próprio punho. As amigas insistiram, a irmã também ia, ela fraquejou e foi. Confessou que dançou seguindo um cordão, que tomou batida e cuba-libre e que de resto não tinha acontecido nada. E, pelo jeito que ele me contava, ela teria encerrado a carta dizendo que pensou muito nele enquanto brincava o carnaval.

Mas quem é que pode controlar a fúria de um ciúme? Quem pode enxergar à distância a dimensão exata dos fatos? Cada ombro que ela tocou para seguir o cordão era para ele o ombro de um traidor. Cada sorriso dela que ele imaginava era uma declaração de infidelidade, cada refrão de marchinha cantado no salão, uma ode à orgia e cada mísero gole de batida compartilhado no copo de uma amiga ou amigo era o mais terrível gesto de embriaguez. Temores dos carnavais. Nesse estado de exaltação ele respondeu a carta sem medir as palavras. Alegou quebra de confiança, falta de respeito, deboche e outras coisas. E encerrou pedindo que ela o esquecesse. Ela tentou uma réplica, duas, confessou que estava arrependida, mas ele, inflexível, sequer deu resposta.

Quando ele acaba de falar, pergunto que raio de melhor carnaval teria sido aquele, que resultara numa tragédia amorosa. Ele voltou a afirmar que só agora se dava conta do grande carnaval que foi aquele. Sente saudade daquela carta que recebeu e que rasgou depois de ler duas ou três vezes. Queria ler a mesma carta hoje com a maturidade que o tempo lhe trouxe. Queria rir das coisas que ela contava, sentir, no mínimo que ficara feliz por ela ter se divertido. Queria responder aquela carta reafirmando que tinha confiança e nada jamais haveria de abalar seus sentimentos. Tarde demais. Arrisco a perguntar-lhe por onde ela anda. Ele responde que não sabe, perdeu contato, perdeu notícias. Restou apenas a vontade de voltar ao carnaval de quarenta anos atrás, de estar “de novo” num baile que não participou.

São essas possibilidades que ele vê hoje e que não viu naquela época que tornaram aquele carnaval inesquecível para ele. Tenho para mim que o ser humano não sente saudade apenas das coisas que viveu, mas também (e talvez sobretudo) das coisas que gostaria de ter vivido. 

Angelo Humberto Anccilotto  (Fev/2016)