NUVENS BRANCAS

Há vários conceitos sobre o tempo de uma geração. Conforme a Bíblia uma geração dura o tempo da nossa vida. Socialmente, as gerações são definidas pelo prazo que dura um determinado costume (ou moda), e filosoficamente elas são medidas pela reprodução, isto é, uma geração equivale ao tempo do ser humano nascer, crescer e produzir outro ser humano, o que ficou estipulado em 30 anos. Isso significa que de 30 em 30 anos uma leva de pessoas sai de cena para dar lugar a outra no mercado de trabalho, nas artes, na ciência, na política, na tecnologia, e por aí afora.  Mas não vamos perder tempo com isso e vamos juntar numa mesma geração as pessoas que nasceram por volta de 1950 até meados da década de 1960, na qual eu e a maioria dos meus amigos estamos incluídos.

Nossa geração é filha de pais que lutaram na guerra e neta de avós que declararam a guerra. E entre 1950 e 1965, mais ou menos, nós nascemos e fomos crescendo ao embalo dos Beatles, da Jovem Guarda, da Bossa Nova e do Abstracionismo. Quando nos tornamos gente grande e capazes de realizar alguma coisa esses movimentos culturais já estavam no fim, mas deixaram em nós a ânsia de realizar o que esses movimentos preconizavam: paz, amor e liberdade – tendo como ferramentas sexo, drogas e rock’n roll. Nossas cabeças tumultuadas andavam ansiosas para por o futuro em prática e nossas bocas amordaçadas sussurravam mensagens cifradas que uns entendiam e outros não. Um dos ícones da nossa geração é a música “Jesus Cristo”, do Roberto Carlos, onde ele já destacava a grande confusão de ideias na qual fomos arremessados (Olho no céu e vejo uma nuvem branca que vai passando / Olho na terra e vejo uma multidão que vai caminhando / Como essa nuvem branca essa gente não sabe aonde vai....) Nosso ídolo maior admitia que estávamos sem rumo.

Sobrevivemos. A duras penas, mas sobrevivemos. Abraçamos o capitalismo como atalho para nossas realizações, arranjamos emprego, cursamos universidades, registramos diplomas, compramos moradias e automóveis, viajamos, derrubamos o muro de Berlim e vários regimes de governo mundo afora. Sobretudo, quebramos paradigmas; seguimos a nuvem branca e chegamos até aqui.

Agora a minha turma está saindo de cena. Muitos já abandonaram as atividades profissionais, vestiram bermudas e calçaram chinelos e estão sentados no chão brincando com os netos. O mundo agora está nas mãos dos nossos filhos. Olhamos em volta e não tem mais nada do que nossos pais deixaram. A gente não sabe mais direito como caminhar neste mundo cheio de truques e armadilhas; apesar de todo esforço, não sabemos nem mesmo como brincar com os netos. O que podia antes não pode mais agora, o que era disciplina passaram a chamar de agressão, o que era educação ficou sendo excesso, o que era brincadeira se transformou em risco.

A minha geração é aquela que alguns sociólogos chamam de “Coxa de Frango” (não confundir com coxinha). Na nossa infância, no almoço de domingo a mãe avisava que a coxa do frango era do pai, o que representava o respeito e o reconhecimento pelo duro danado que ele dava durante a semana para por a comida na mesa.  No domingo prestávamos a ele essa homenagem inconsciente como gesto de gratidão. Haveríamos de crescer, ter uma família, lutar como ele lutava e comer a coxa do frango. Mas aí veio o mundo e nos disse (não sei exatamente de que forma o mundo nos disse isso – talvez tenha sido pela televisão, pelos livros, pelas revistas, pelas escolas, pelos vizinhos, sei lá) mas veio o mundo e nos disse que pai que é pai renuncia a coxa do frango em favor dos filhos e come a asa e o pescoço. Concordamos ( também não sei como concordamos, mas concordamos). Aceitamos essa renúncia e deixamos as crianças avançarem na panela e tirar as coxas de lá. O mundo nos ensinou quando crianças que a coxa era do pai. Depois, na nossa vez, quando viramos pai, ele nos ensinou que a coxa era dos filhos e agora, por fim, é de quem almoçar primeiro.

O que se vê é que a luta de uma geração só rende frutos para a geração seguinte. A minha geração começou a vida lutando contra tudo o que era proibido e, curiosamente, depois de entregarmos aos nossos filhos um mundo praticamente sem proibições (com coxa de frango e tudo), estamos terminando a nossa história na Terra protestando contra tudo o que foi liberado. A sociedade alternativa de  Aleister Crowley, que Raul Seixas transformou em canção há quarenta anos, está se cosnumando nos dias de hoje e tanta gente que chegou ao êxtase com a música agora não reconhece a nova ordem. Será tudo da lei? Tenho a impressão que outra nuvem branca anda passando no céu, sobre as nossas cabeças.

Angelo Humberto Anccilotto (Mar/2016)